Milton Michida/Agência Estado
Milton Michida/Agência Estado

Aos 81 anos, morre Ruth Escobar

Ícone do teatro brasileiro, a atriz e empresária foi destaque na vanguarda anos 1960 e 1970 e estava internada no Hospital Nove de Julho

O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 15h15

SÃO PAULO - A atriz Maria Ruth dos Santos Escobar morreu nesta quinta-feira, 5, em São Paulo. Ícone do teatro brasileiro, Ruth foi destaque na vanguarda nos anos 1960 e 1970, com a companhia Nova Teatro e com a realização do 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974. 

Nascida em 1936, em Portugal, Ruth Escobar atriz mudou-se para o Brasil em 1951 e casou-se com o filósofo Carlos Henrique Escobar. Ela estava internada no Hospital Nove de Julho e o velório será no teatro que leva o nome da atriz, ainda sem horário confirmado.

Demolir parte do teatro, criando um vão livre de 20 metros de altura, foi uma das medida necessárias para que a atriz, produtora e militante Ruth Escobar, morta nesta quinta-feira, 5, colocasse o Brasil no mapa da vanguarda teatral do mundo.

O feito realizado em 1969, com a estreia de, dirigido pelo argentino Victor Garcia rendeu o elogio do próprio autor, o francês Jean Genet, como a melhor montagem de seu texto. O ator Juca de Oliveira recorda o legado de Ruth ao teatro. “Ela nos lançou para a modernidade, dentro e fora dos palcos.”

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A carreira da protagonista de mais de 30 espetáculos não coube apenas no teatro e alargou-se pela produção cultural e ativismo político, entre episódios polêmicos. Em 1951, anos, a portuguesa aportou no Brasil e, no fim dos anos 1950, foi estudar interpretação na França, ao lado do marido, o filósofo, dramaturgo e poeta Carlos Henrique.

Quando retorna, cria o Novo Teatro, companhia que estreou com a montagem de Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht, em 1960, tida como fracasso de bilheteria, o que prejudicou o salário de sua equipe e espetáculos posteriores. 

Nada disso roubou o brilho da artista que fulgurou ainda mais, em 1964, com a criação do Teatro Ruth Escobar, palco de resistência que abrigou os memoráveis A Ópera dos Três Vinténs, também de Brecht, e A Roda Viva (1968), de Chico Buarque, em plena ditadura.

Neste último, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o teatro, destruiu equipamentos e espancou os artistas, entre eles Marília Pêra, que dividiu a cela com Ruth. Oliveira recorda a força e coragem da luta política da artista durante o velório do jornalista Vladimir Herzog, preso político morto em 1975.

“Ela fez um discurso emocionante pela resistência e em prol do amigo torturado. No fim, deu um brado contra a ditadura e temíamos que ela fosse encarcerada ali mesmo.”

Nessa época seu Festival Internacional de Teatro já estava a todo vapor. Criado em 1970, o Brasil teve a chance de testemunhar trabalhos de nomes como Bob Wilson e Jerzy Grotowski.

“Com ela não tinha portas fechadas”, afirma o ator Fúlvio Stefanini que contracenou com a atriz em O Versátil Mr. Sloane, em 1966, texto maldito do inglês Joe Orton. “Sua convicção não tinha limites, a Ruth avançava sem medo e tinha um grande poder de agregar pessoas. Foi uma mulher desbravadora.”

Ruth também atuou na política e foi eleita deputada estadual duas vezes, em 1983 e 1987, sendo expulsa do partido por apoiar o empresário Antonio Ermímio de Moraes, do PTB. Em 2011, diagnosticada com Mal de Alzheimer, teve patrimônio interditado a pedido da filha Patricia, passando a gerência a um escritório de advocacia. Mais tarde, Patricia chegou a pedir ajuda, apontando negligência na administração.

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