Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Aos 80 anos, Sérgio Mamberti abre exposição com colagens e fotos históricas de 63 anos de carreira

Ao fim da temporada de 'Visitando o Sr. Green' e peça com Rodrigo Lombardi, ator também anuncia duas estreias para o segundo semestre

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

Assim que desembarcou na Rússia para participar do Festival Chekhov, o ator Sérgio Mamberti temeu não conseguir estrear o espetáculo Visitando o Sr. Green. Ao 80 anos, o ator chegou a Moscou com a voz velada. “Eu estreei sem os agudos”, conta. Na véspera da apresentação, ele jamais seria reconhecido como o dono do brado “Raios e trovões!”, do seriado Castelo Rá-Tim-Bum. “Elas chamaram um médico da companhia de balé de Moscou e ele fez uma magia que eu nunca vi”, ele explica ao Estado. 

Com oito décadas completas em abril, Mamberti não cansa de comemorar. Não sem pausas, ele precisou interromper a entrevista para falar ao telefone sobre detalhes e agendas. No início do ano ele fez turnê nacional de Um Panorama Visto da Ponte, ao lado de Rodrigo Lombardi. Neste domingo, 28, ele também encerra a temporada de Visitando o Sr. Green, no Teatro Renaissance. Mas o motivo das ligações não era sobre teatro. 

No dia 5 de agosto, ele abre exposição Comandante Mamberti na Galeria São Paulo Flutuante, com 30 colagens de sua autoria, disponíveis para venda, produzidas durante os 63 anos de carreira nos bastidores dos palcos e da televisão. “Toda essa criação foi desenvolvida na intimidade dos camarins, ou períodos de descanso. Quando não estava fazendo as colagens, aproveitava para recortar imagens que eu achava interessante.” 

As origens dos materiais são inúmeras. Ele já chegou a arrancar cartazes em espaços públicos – “porque havia essa granulação nas cores e fiquei apaixonado”, aponta um quadro pendurado na parede de sua casa. De posse dos papéis, Mamberti posiciona-se na mesa de trabalho e experimenta algumas combinações. Os temas vão de homenagens a artistas mundiais – há uma série com Andy Warhol, Marilyn Monroe, John Lennon, David Bowie – também com artistas brasileiros e amigos pessoais como Paulo Autran, Cacilda Becker, Gal Costa. “Os assuntos políticos também estão em algumas colagens”, ele mostra a fusão (veja ao lado) da Independência, de Pedro Américo, com a emblemática fotografia da Menina do Napalm, durante a Guerra do Vietnã. Há também outros estilos nas criações de Mamberti, mais formal, com elementos abstratos e oníricos, como grandes palcos de um universo impossível. 

Aliás, não é a primeira vez que ele torna pública suas obras. Em sua estreia, em 1981, o cenógrafo Flávio Império enxergou nas composições visuais de Mamberti um método semelhante ao seu trabalho como ator. “Seus personagens no palco não cabem nos estreitos limites dos traços psicológicos ou sociológicos. Ele monta seus personagens como colagens.” O resultado são “cenas mudas do teatro do mundo”, definiu o cenógrafo naquele ano. “Quanto a gente vê uma carreira consolidada, é raro pensar que não há mais possibilidades. O que Flávio disse me impulsionou a buscar outras formas de expressão”, afirma o ator. 

Após mais algumas pausas na entrevista para negociar, por telefone, uma instalação visual nas proximidades da Galeria São Paulo Flutuante, Mamberti fala da temporada de Visitando o Sr. Green e comenta a repercussão do espetáculo em Moscou. “Agora preciso traduzir esse material”, nas mãos ele segura as cópias de um longa entrevista para um dos principais jornais de Moscou, além de um grande catálogo, todo em russo.

Mas e a voz? O médico escolhido para cuidar do ator quase mudo tinha seus segredos. Mamberti conta que após examinar a garganta do paciente, o médico solicitou que ele ficasse com a boca aberta. “Ele sacou uma longa agulha comprida, torta, parecida com um gancho. Na ponta, havia uma combinação de remédios e tocou bem na região afetada. Foi chocante, mas também rápido. Tive que ficar em silêncio por algumas horas até voltar com o vozeirão.” 

Além das colagens, a exposição Comandante Mamberti reserva um espaço de resgate da memória do ator, de sua atuação artística e política. Ele selecionou algumas fotografias de família, grandes personagens além de cenas históricas com outros artistas e colegas.

Aos jovens artistas, cabe a resistência

Ator fala de duas peças que devem estrear no segundo semestre e diz que é preciso valorizar as plateias 

Enquanto organiza o lançamento de sua exposição de colagens, Sérgio Mamberti já planeja retornar aos palcos. Na verdade, nunca saiu deles. A Mamberti Produções será responsável pela estreia de O Ovo de Ouro, de Luccas Papp, o relato sombrio de um sobrevivente do Holocausto, com Mamberti em cena. Também deve estrear no segundo semestre uma produção mais experimental, inspirada nas Três Irmãs de Chekhov. “A ideia é dividir o palco em dois. De um lado, os atores estão encenando a peça, do outro, eles estão no camarim, aguardando para entrar”, conta.

O trabalho de Mamberti não o afasta da preocupação com outras áreas da Cultura. “No fim de cada peça, preciso reafirmar que o motivo do meu trabalho é o público que está na minha frente.” Com importante atuação política, ele não deixa de considerar que o segmento tem potencial no País. “A cultura brasileira movimenta uma grande economia e só quem conhece o setor de perto saberá como fortalecê-lo.”

Além das estreias deste ano, ele antecipa outros dois projeto antigos. O primeiro é A Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, mesmo autor de Um Panorama Visto da Ponte. O segundo será um espetáculo musicado com poemas de Lorca. “É impossível não lembrar de Paulo Autran e do Raul Cortez nesses dois projetos. Vou dedicar os espetáculos a eles.” 

COMANDANTE MAMBERTI. Galeria São Paulo Flutuante. R. Estados Unidos, 94. Tel.: 3064-7019. Visitação: todos os dias, das 11h às 18h. Até 31/8.

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