DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Aos 15 anos, Magiluth encara a cadência das palavras de Lagarce

Em novo trabalho, grupo do Recife deixa tom político de suas últimas peças para discorrer sobre família e afeto como vínculo de transformação

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 12h58

Para uma companhia habituada em forjar poesia nas próprias palavras, a incursão por Apenas o Fim do Mundo, de Jean-Luc Lagarce, parece ter ampliado o trabalho criativo do Magiluth

Desde o fim de março, o grupo fundado no Recife está em cartaz no Sesc Avenida Paulista em comemoração aos seus 15 anos. Até agora, eles já apresentaram algumas montagens do repertório, como Aquilo Que Meu Olhar Guardou (2012) e Dinamarca (2017). 

Assim como nas outras produções do grupo, Magiluth sempre pesquisou criações que abrigassem suas preocupações políticas. “Viemos de um contexto de militância, como no movimento Ocupe Estelita, contra a demolição de armazéns na região central do Recife. De alguma forma, levamos essa postura para os trabalhos”, conta o ator Giordano Castro. Em Aquilo Que Meu Olhar Guardou, a cidade está à vista e é investigado o comportamento do homem contemporâneo no urbano. Já em Dinamarca, a trama política de Hamlet ganha leitura atual ao revelar o que atormenta a cabeça do jovem príncipe. 

Pode-se dizer, então, que Apenas o Fim do Mundo soa como a recente divulgação da primeira foto de um buraco negro – um novo campo a explorar. No texto do francês, não há luta política declarada ou conspirações de poder. O debate é pelo afeto. “Percebemos que, nos últimos anos, ficamos esgotados, e junto se estilhaçaram as relações familiares, entre nós e no País”, conta o ator.

A solução para os seis rapazes (Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Lucas Torres, Mario Sergio Cabral e Pedro Wagner) foi se recolher na prece de Lagarce. “Há vários meses que eu esperava acabar com isto”, continua uma personagem. “Como quando às vezes ousamos agir, só um pouco, diante de um perigo extremo, imperceptivelmente, sem querer fazer barulho ou cometer um gesto muito violento que acordaria o inimigo e que te destruiria imediatamente.” 

A tradução é de Giovana Soar, que compartilha a encenação com Luiz Fernando Marques. Ela conta que não deixou de mostrar surpresa quando o Magiluth demonstrou interesse em encenar o texto do francês. “A peça oferece uma estrutura ostensiva, além da forma como o autor articula as palavras”, diz ela. “Trata-se de um texto não realista, embora se inspire em relações realistas.”

A dupla de diretores se empenhou em frentes diversas na encenação. O espaço cênico da unidade do Sesc ganhou atenção de Marques e as cenas da peça – que dura duas horas – despertam e morrem em cada canto da sala, seja na varanda iluminada ou na escuridão delicada da cena seguinte, como viu a reportagem durante um ensaio.

A dramaturgia ganhou esforço do elenco com a direção de Giovana. “A leitura da peça nos mostrou que seria preciso compreender a cadência das palavras, encontrar o ritmo de dizê-las e a maneira de respirar.” 

Outro dado importante é que os rapazes interpretam mulheres, sem caracterização. No início, pode até ser estranho, mas não deixa de ser curioso ver como as moças de família se revelam. 

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