JF DIORIO /ESTADÃO
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'Ao Pé do Ouvido' cria audiopeça e entrevista imigrantes nordestinos

Espetáculo de Zé Henrique de Paula utiliza técnica chamada verbatim

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 06h00

Durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi no ano passado, o presidente russo Vladimir Putin volta e meia defendeu a lei anti-gay que, além de impedir a livre manifestação, poderia prender atletas e cidadãos por praticar atitudes consideradas “propaganda homossexual”. Com os olhos do mundo voltados para o País, ativistas e artistas realizaram protestos e chamadas para boicotes ao evento.

Uma maneira de teatralizar tal momento se concretizou no espetáculo Sochi 2014, por meio da técnica chamada verbatim. Nela, a escritora e diretora inglesa Tess Berry-Hart colheu entrevistas de diversas pessoas e construiu um retrato do que é ser gay na Rússia. Com os depoimentos transcritos, o objetivo no palco foi reproduzir o texto da maneira mais fiel e exata possível. “O ator funciona como uma mídia, eliminando os conceitos de construção de personagem. É quase um hiperrealismo”, explica o diretor Zé Henrique de Paula que estreia nesta quinta, 3, o espetáculo Ao Pé do Ouvido no Sesc Pinheiros. 

Tal qual o caso em Sochi, o verbatim costuma ser utilizado para evocar episódios de preconceito, violência e guerra. Na peça de Zé Henrique, o que disparou a atenção foi a onda de ódio aos nordestinos durante a vitória da presidente Dilma Rousseff nas últimas eleições. O grupo então passou a conversar com pessoas que vieram do Nordeste do Brasil para morar em São Paulo. “O que queríamos era retratar a experiência do êxodo sob os olhares de cada um deles”, explica o diretor. 

O resultado elegeu sete nordestinos: a babá, o porteiro, o pescador, a costureira, o pedreiro, o médico e a atriz com seus sotaques forjados na Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Maranhão.

Para incorporar as histórias, o desafio do elenco exige principalmente boa escuta. Em Ao Pé do Ouvido, os atores não transcreveram o texto e reproduzem os depoimentos simultaneamente por meio de fones de ouvido e celulares. “Nós falamos o que estamos ouvindo sem sequer ouvir nossa própria voz. É importante prestar atenção ao detalhes de alteração no tom e também as pausas e a respiração”, explica a atriz do elenco Rita Batata. “O ator está acostumado a construir uma personagem. Aqui, não dá para fazer isso. Funciona como uma reação em cadeia na qual o texto ouvido esparrama pelo corpo”, completa o diretor.

A técnica verbatim teve sua primeira experimentação conhecida pelas mãos da atriz e dramaturga norte-americana Anna Deavere Smith com a estreia de Fires in The Mirror (Incêndios no Espelho), em 1992. A peça foi composta por depoimentos de pessoas envolvidas no conflito entre negros e judeus ocorrido no ano anterior na vizinhança de Crow Heights, em Nova York. “No início, chega a ser um pouco esquizofrênico. Você ouve uma voz na sua cabeça e precisa falar sem demora porque a voz continua. Não dá tempo de premeditar cenas ou movimentos. Por vezes também parece até uma sessão de mesa branca”, brinca a atriz Bruna Thedy. 

Em Ao Pé do Ouvido, cumpre-se um relato crítico e real de quem sofreu e sofre preconceito por “ser baiano”, como a própria personagem que Bruna ecoa. E o drama da busca por dignidade na selva de pedra se revela em muito nas dores e sonhos em comum. “Em quase todas as entrevistas, as pessoas falam da importância da educação e do trabalho, que é o que as moveu para cá. E isso acaba por não retratar apenas os anseios dos nordestinos, mas se configura como uma necessidade do nosso próprio País.

AO PÉ DO OUVIDO. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, tel. 3095-9400. Quintas, sextas, sábados, 20h30. R$ 7/R$25. Até 17/10.

Ao pé do ouvido (2015, 2 min) // Teaser from Insone Filmes on Vimeo.


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