Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Ao contrário de outros teatros, Metropolitan aposta em ópera de 6 horas na volta dos espetáculos

Espaço cultural resolveu encenar 'Die Meistersinger von Nürnberg' de Wagner, apesar da longa duração e da pandemia

Javier C. Hernandéz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 15h00

NOVA YORK - Conforme as instituições culturais voltam à vida neste outono (do hemisfério norte), após a longa paralisação devido à pandemia, muitas estão tentando atrair o público de volta com programas mais curtos, muitas vezes sem intervalos.

O Metropolitan Opera está tomando outro rumo.

Em uma audaciosa contraprogramação, o Met está encenando a ópera mais longa em seu repertório, são cerca de seis horas de Die Meistersinger von Nürnberg de Wagner. Mesmo em tempos pré-pandêmicos, o trabalho seria um empreendimento hercúleo, exigindo um exército de mais de 400 artistas e ajudantes de palco, mudanças vertiginosas de cenário, cenas de luta animadas e dois intervalos de 40 minutos.

“Sempre há espaço para épicos”, disse Peter Gelb, gerente geral do Met, em uma entrevista. “Há sempre um apelo para grandes eventos.”

Como o público começou a aparecer lentamente de novo, muitas instituições adotaram uma abordagem mais cautelosa, com tempos de funcionamento mais curtos do que o normal. A Filarmônica de Nova York, o Carnegie Hall e o New York City Ballet eliminaram os intervalos neste outono, quando retomaram as apresentações, embora planejem trazê-los de volta em breve.

O épico do Met, Meistersinger, luxuosamente apresentado com alguns dos cantores de Wagner mais aclamados do mundo e regido por Antonio Pappano, surge no momento em que a companhia está tentando se recuperar da pandemia - que custou US $ 150 milhões em receita - com uma série de produções ambiciosas. Ela abriu sua temporada com Fire Shut Up in My Bones, de Terence Blanchard, a primeira ópera de um compositor negro em seus 138 anos de história, que se tornou um sucesso, esgotando quatro de suas oito apresentações. O mês passado também trouxe o elaborado Turandot de Puccini e a primeira vez do Met fazendo a versão original de Boris Godunov de Mussorgsky.

Mas não está claro se o público irá aparecer para ver Meistersinger e outras óperas, que costumam ser longas, em meio a preocupações constantes com a variante delta, em um momento em que o público precisa apresentar comprovante de vacinação para entrar e usar máscaras durante as apresentações.

Na noite de estreia de Meistersinger na última terça-feira, apenas cerca de 56% dos 3.700 assentos disponíveis foram ocupados. O Met atribuiu o baixo comparecimento em parte ao tempo tempestuoso; em uma matinê de sábado, depois que a tempestade passou e algumas críticas positivas apareceram, 67% das cadeiras estavam ocupadas. Os turistas estrangeiros também estiveram fora de Nova York por causa da proibição de visitantes de 33 países, que deve ser suspensa no início de novembro.

A companhia, sensível às preocupações com o vírus, modificou algumas ofertas por causa da pandemia, eliminando um intervalo na produção de Rigoletto com estreia na véspera de Ano Novo. Mas Gelb disse que ao encenar o massivo Meistersinger, que vai até 14 de novembro, o Met estava mostrando que mesmo grandes obras poderiam ser realizadas com segurança.

“Estamos dando esperança para os amantes da ópera”, ele disse. “Ser capaz de apresentar uma ópera como Meistersinger é um símbolo da determinação do Met.”

Mas o vírus aumentou a dificuldade de apresentar Meistersinger, uma história sobre o amor e a produção musical na Alemanha medieval. A produção de Otto Schenk em 1993 foi um desafio logístico mesmo em tempos normais, exigindo 14 contêineres de caminhão para abrigar o cenário naturalista projetado por Günther Schneider-Siemssen; 370 figurinos; e uma poderosa orquestra de 91 pessoas.

A pandemia adicionou novos níveis de complexidade, à medida que cantores, músicos da orquestra, dançarinos e auxiliares de palco passavam longas horas se preparando para trazer a ópera de volta ao palco. (O ensaio geral final cronometrou sete horas e 40 minutos). Todos são obrigados a usar máscaras onde quer que vão no Met, exceto no palco. Mas, uma vez no palco, esqueça o distanciamento social: Meistersinger exige abraços carinhosos, brigas corpo-a-corpo e canto apaixonado, muitas vezes à distância de dezenas de pessoas.

Usar máscaras durante os primeiros ensaios foi penoso para alguns cantores.

 “É uma tortura”, disse o barítono Michael Volle, que faz o papel principal do sapateiro e poeta Hans Sachs. “Você não consegue respirar livremente.”.

O Met tornou a segurança uma prioridade, exigindo testes de coronavírus duas vezes por semana para todos os funcionários e artistas convidados. Máscaras e estações de higienização das mãos são onipresentes. Placas afixadas nos bastidores lembram as pessoas de relatarem seus sintomas caso se sintam mal.

Apesar dos protocolos rígidos, na preparação para a estreia de Meistersinger, a orquestra foi forçada a fazer uma série de substituições de última hora depois que um membro testou positivo para o coronavírus. Vários outros músicos também relataram mal estar, embora não tenham testado positivo. (No geral, desde a imposição da exigência de testes no início deste ano, o Met relatou 19 testes positivos entre 12.824.)

Susan Spector, uma oboísta da orquestra, disse que ficou alarmada ao descobrir que estava sentada perto de alguém que testou positivo. Meistersinger era um desafio mesmo antes da pandemia, e ela disse que ansiava pelos dias em que o vírus não representasse mais uma distração.

 “Eu sempre faço uma comparação com o Tour de France. As subidas mais íngremes estão no final da corrida”, disse Spector sobre a ópera. “É um desafio, física e psicologicamente, para todos na orquestra.”

Para manter a energia em alta na noite de estreia, os músicos comeram bananas e barrinhas de cereal. Alguns jogavam pôquer nos bastidores durante o intervalo, uma longa tradição do Met.

Embora as multidões estivessem um pouco esparsas, muitas pessoas do público disseram que não se incomodaram com o vírus e os protocolos de segurança.

“Parece muito menos arriscado do que jantar em um local fechado”, disse Matthew Keesan, 40, um engenheiro de software, durante o segundo intervalo. “Todo mundo está vacinado e isso significa que o risco é muito baixo. E estamos de máscara.”

Vários fãs de Wagner disseram que planejam assistir a várias apresentações de Meistersinger nas próximas semanas.

 “É o paraíso”, disse Jean Andrews, 68, um advogado aposentado. “Não há nada como Wagner: a grande orquestra e o grande som.”

Dentro de um estúdio de ensaio por volta das 22h30, um grupo de coristas colocou chapéus de palha e calças xadrez e ajustou pretzels de espuma gigantes pendurados em seus pescoços. Cerca de meia hora depois, eles subiriam no palco para a cena final, onde mais de 200 pessoas cantam, dançam, riem, e se abraçam em um cenário projetado para se assemelhar a um prado.

 “Você pode sentir a animação”, disse Tshombe Selby, um tenor que interpreta um alfaiate. “É como pular em um trem em movimento.”

Quando o espetáculo terminou, pouco antes da meia-noite, muitos dos artistas comemoraram, tirando fotos juntos no palco e fazendo planos para ir a restaurantes e bares.

Volle disse que ficou comovido porque a produção foi capaz de avançar, apesar da pandemia.

“Poder fazer isso juntos”, ele disse, “este é o significado da música”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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