Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Antunes Filho revela as inquietações que o rodearam em sua nova peça

'Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse' é um dos destaques Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas; peça segue para o Teatro Anchieta depois

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2018 | 06h00

Foi um longo período de mau humor. No período de gestação de seu novo espetáculo, o diretor Antunes Filho confessa que estava perdido. “Não sabia onde ambientar a peça, nem como caracterizar os personagens”, conta ele ao Estado, abrindo seu tradicional sorriso. A felicidade revela a sensação de alívio. Afinal, desde maio do ano passado, Antunes, um dos mais importantes encenadores do teatro brasileiro, prepara sua versão para Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse, do francês Jean-Luc Lagarce. A peça será um dos destaques do Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas que será aberto em Santos no dia 5 de setembro. Eu Estava... será exibido nos dias 13 e 14 do próximo mês no festival e, em seguida, entra em cartaz no Teatro Anchieta, em São Paulo.

“Eu preferia repetir a experiência que tive com Blanche, que foi montado no CPT, mas preferiram que eu fosse para o palco tradicional”, observou. Não se trata de uma reclamação, mas da confirmação da necessidade que Antunes teve, nos últimos meses, de se sentir em casa, que é o Centro de Pesquisa Teatral, espaço no Sesc Consolação e que, sob seu comando há 31 anos, foi palco do nascimento de inovações ousadas – como no caso de Blanche, baseado no clássico Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, mas com o texto totalmente falado em fonemol. Trata-se de uma língua imaginária usada pelos atores como símbolos do inconsciente, não da razão. “O público era uma espécie de DJ do espetáculo: fazia dramaturgia particular com o que via, com o que ouvia e com o que sentia”, diz.

É essa participação ativa do espectador que o encenador espera provocar em seu novo espetáculo. Na peça de Lagarce, cinco mulheres esperam o retorno do filho de uma delas, que havia sido expulso de casa pelo pai. O original, porém, é repleto de lacunas. “Lagarce não facilita”, continua Antunes, sorriso ainda aberto. “Não há indicação do local onde se passa a peça, da época ou mesmo de mais informações sobre as personagens. Sabemos apenas que esperam por um rapaz.”

O encenador conta que passou noites em claro, tentando descobrir um caminho para sua encenação. Desde o início do trabalho, em maio do ano passado, foram várias possibilidades e, nos momentos mais agudos, Antunes conta que pensou em desistir. “Foi quando descobri o que fazer.”

Antunes Filho conversa com o Estado em seu quartel-general, no Sesc Consolação. É ali onde ensaia Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse com as atrizes Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Suzan Damasceno e Rafaela Cassol. O espaço está tomado por cadeiras espalhadas aleatoriamente e há apenas uma mesa de cor escura, enigmaticamente colocada à frente, no centro. “Como não estava definido o local da ação, decidi por todos os lugares, representados pelas cadeiras. Explicações? Não dou. O público tem que fazer sua própria dramaturgia: espero que cada um saia do espetáculo com sua própria história”, observa o encenador. “Todos saindo como uma espécie de Marcel Duchamp, ou seja, como alguém que transforma o banal em arte.”

Ele oferece, portanto, apenas fragmentos da história, fiapos que auxiliam o espectador a ter uma mínima ideia da situação dramática. “Ausência de informação provoca curiosidade. A experiência sensorial tem que ser assim”, conta Antunes, sempre firme em sua missão de dramatizar o contemporâneo. “O drama aqui é um recorte da realidade, pois o teatro não tem a amplitude de um romance, por exemplo, que engloba tudo, criando um mundo inteiro.”

O processo de trabalho de Antunes Filho não se resume apenas à montagem de uma encenação. “Ele busca contextualizar o assunto da peça, fornecendo dicas de filmes, livros, quadros, esculturas, enfim, tudo que enriqueça a compreensão da montagem”, conta Luana Frez, assistente do diretor. “Com esse conhecimento, fica mais fácil entender a obra poética dessas mulheres e seus caminhos na história – afinal, a figura masculina, apesar de central na narrativa, é deslocada para as margens.”

O texto do francês Jean-Luc Lagarce (1957-1995) tem sua construção dramatúrgica baseada na memória e na imaginação. Para ele, importava mais o não dito, o que espelha suas peças a clássicos como As Três Irmãs, de Chekhov, ou mesmo Esperando Godot, de Beckett, e Odisseia, de Homero. Em todas, o fio que as une mostra a realidade como algo desprezível diante do universo de possibilidades que cada personagem cria na cabeça, pois cada uma, de um modo muito particular, apresenta possibilidades de existência que tomam por reais. “É a chamada elipse da espera”, explica Antunes.

Seu método criativo continua indestrutível – para o encenador, o minimalismo é um caminho correto a ser seguido por um ator. “Hoje, todos gritam muito, como se o berro fosse a melhor forma de se passar uma mensagem”, conta ele. “Um artista tem de articular bem e não se apoiar em microfones.” Para Antunes, técnica é vital. “Usamos hoje o falso naturalismo e, para isso, o ator deveria usar todos os seus ossos para conseguir uma boa inflexão.”

Antunes comunga da mesma profissão de fé de Hélio Oiticica, que via o artista não como um criador cuja obra deveria ser contemplada, mas como um motivador. “A criação como tal se completa pela participação do espectador, agora considerado ‘participador’”, dizia o artista. Por isso que, irrequieto, o encenador constantemente põe seu talento à prova, criando alternativas para a boa interpretação. 

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A ausência de informação provoca curiosidade. Cada espectador vai entender à sua maneira as relações entre as personagens”
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Antunes Filho, Encenador

Foi assim com o método de articular as palavras a partir de uma região do cérebro, passando pela criação do fonemol, língua imaginária criada e desenvolvida por ele e que traz vestígios de palavras conhecidas, especialmente nomes próprios, até chegar com a provocação de escalar um homem para viver Blanche Dubois, buscando classificar o intérprete desse tipo como um performer. “É aquele ator ou artista que se torna agente de crise, visando quase sempre ao inédito para sensibilizar e transformar o humano, o social e o político arraigado”, contou ao Estado em 2016, quando da estreia de Blanche.

A disposição de Antunes parece não ter fim. “O ator brasileiro vive desassistido: é preciso orientação pela arte e para a arte”, comenta ele, incansável na luta que não tem fim.

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