Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Antunes Filho, renomado diretor de teatro, morre aos 89 anos

Encenador estava internado desde o começo da semana e morreu nesta quinta, 2

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2019 | 23h16

“Mestre” é a definição mais comum citada por artistas ao se referirem a Antunes Filho, que morreu na noite de quinta-feira, 2, aos 89 anos. Um dos principais encenadores do teatro brasileiro, ele inovou, a partir da década de 1980, ao propor uma nova atitude para renovar arte de representar e pregar o primado do ator. “O ator tem de ser um artista e não um funcionário do palco”, dizia Antunes.

Um dos grandes nomes da primeira geração de diretores que promoveram uma revolução cênica entre os anos 1960 e 70, Antunes entrou definitivamente para a história do teatro brasileiro ao criar uma obra com características dramatúrgicas e cênicas puramente autorais: foi com Macunaíma, espetáculo de 1984 e que se tornou referência para as gerações seguintes.

“Éramos um grupo formado por Antunes, Flávio Rangel, Amir Haddad, Augusto Boal, eu”, comenta José Celso Martinez Corrêa, em vídeo divulgado pelo site do grupo Oficina. “Antunes começou fazendo montagens de textos americanos, o que fazia muito bem. Depois, enveredou para a pesquisa, quando passou a receber muitos jovens – ele formou muitas gerações, mais do que eu.” Zé Celso comenta que Antunes Filho teve a capacidade de fazer, na época, o que todos encenadores já ambicionavam. “Não digo brasileiro nacionalista, mas com encenadores do Brasil fazendo teatro no mesmo nível que se faz no mundo inteiro.”

Alguns classificam seu teatro como apolíneo, pela disciplina e sobriedade; ele preferia comentar que sua obra é orgânica, decisivamente influenciada pela atualidade. Na verdade, sua trajetória coincidiu com as mais decisivas transformações dessa arte, nas últimas décadas. “Nossa geração formou-se em Antunes Filho, ou seja, vimos O Eterno Retorno, Macunaíma, Nelson 2 Rodrigues. Éramos alunos e partícipes daquele momento de ruptura, daquele instante de heresia, no qual os cânones do teatro brasileiro ruíram, para ele adentrar”, conta Gabriel Villela. “Ele foi um farol no meu caminho”, completa Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro.

Entre suas principais virtudes cênicas, Antunes apontava a importância essencial da respiração no trabalho de atuação. Segundo ele dizia, todo estímulo provoca uma reação física distinta, o que acaba interferindo também na respiração, ato involuntário que permite ao artista atingir justamente o subconsciente. “É daí que aflora a interpretação correta”, comentava. “Quando o ator utiliza seu lado racional, ocorre o contrário: terá uma atuação estereotipada.”

A atriz Juliana Galdino tornou-se uma das principais intérpretes desse estilo de atuação, conciliando técnica com talento. “Para ele, a voz era o espelho da alma, não os olhos”, explica. “Uma espécie de convite para passarmos a enxergar com os ouvidos, assim como acontece com a música. Dessa forma, as imagens são criadas pelo coração. Tudo o que é importante entra pelos nossos ouvidos e vai direto ao coração – quando entra pelos ouvidos e vai direto para a cabeça é porque não era tão importante assim. Tudo, cada palavra dele, cada risada, cada berro ia direto ao coração de quem pode ouvir.” E a atriz, que protagonizou espetáculos como Medeia e Fragmentos Troianos, finaliza, emocionada: “Agora, silêncio. E descompasso aqui dentro.”

Aos atores, aliás, Antunes Filho deixou lembranças poderosas. “Ele foi o criador de algumas das minhas melhores memórias como espectador”, confessa Guilherme Weber. “Todo o rigor da cena, seus coros carnavalescos povoados de Lilian Gishs marmóreas, a brasilidade concreta, a originalidade e a profundidade de suas referências e preferências intelectuais, a física quântica, Kazuo Ohno, Greta Garbo e Carmen Miranda.”

A morte do encenador surpreendeu até os mais experientes. “Antunes foi um dos maiores diretores teatrais brasileiros de todos os tempos, deixando um legado que nunca se esgotará”, observa o escritor Sérgio Sant’Anna. “Sua longevidade e criatividade sem igual nos traziam uma sensação de que nunca morreria.”

José Alves Antunes Filho nasceu em São Paulo, em 1929. Iniciou a carreira teatral em 1952, como assistente de direção no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, onde observou o trabalho de diretores como Adolfo Celi, Luciano Salci, Ziembinski, Ruggero Jacobbi e Flamínio Bollini, estrangeiros que foram contratados para especializar e modernizar a companhia. No ano seguinte, Antunes estreia profissionalmente com a montagem de Week-End, de Noel Coward, comédia que se apoia em um humor inteligente e refinado.

No final da década de 1950, fundou e dirigiu a companhia Pequeno Teatro de Comédia, cuja estreia acontece com O Diário de Anne Frank, em 1958. No ano seguinte, dirige Alô.. .36-5499, de Abílio Pereira de Almeida, e tem como assistência Ademar Guerra, iniciando uma longa parceria. O espetáculo revela um momento crucial em sua carreira, quando realiza o desejo de montar um texto nacional para aprofundar sua pesquisa estética, mas sem se esquecer do retorno financeiro.

Depois de um estágio na Itália, Antunes volta ao TBC em 1962 para encenar Yerma, de Federico Garcia Lorca, com figurinos e cenários de Maria Bonomi, com quem desenvolve projetos fundamentais. Destaque ainda para a excepcional atuação de Cleyde Yáconis.

Em 1964, quando sua forte personalidade provoca controvérsias ao exigir uma disciplina espartana dos atores, Antunes cria uma montagem experimental de Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, na qual o elenco foi trabalhado exaustivamente em busca de um instinto e uma verdade que se traduzem em chocante realismo. O espetáculo divide opiniões, o que faz com Antunes retire a peça repentinamente de cartaz.

Seu primeiro contato com a obra de Nelson Rodrigues acontece em 1965, quando montou A Falecida com a Escola de Arte Dramática, a EAD. No mesmo ano, à frente do teatro da Esquina, encena A Megera Domada, de Shakespeare, alcançando críticas favoráveis. “Antunes se atrevia a colocar personagens de Shakespeare tomando coca-cola ao som dos Beatles, num cenário magnífico de Maria Bonomi no palco do Aliança Francesa”, recorda-se o ator, diretor e jornalista Oswaldo Mendes.

Voltaria ao dramaturgo em 1974, com Bonitinha, Mas Ordinária, com destaque para a atuação de Miriam Mehler. Controverso, decide continuar seu trabalho de pesquisa na TV Cultura, emissora que o convida para dirigir teleteatros – destaque para uma inesquecível Lilian Lemmertz no papel de Alaíde, em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Aos poucos, dedica-se mais a trabalhar com jovens, mais abertos às suas experimentações. É nesse contexto que nasce a histórica montagem de Macunaíma, a partir de uma oficina teatral. Os ensaios duraram quase um ano com o Grupo de Arte Pau-Brasil. 

Macunaíma abre as perspectivas para um novo e ousado processo de criação: não mais pesquisar o universo de um texto dramático, mas construir uma dramaturgia a partir de um texto literário”, diz o verbete sobre Antunes na Enciclopédia Itaú Cultural. “A encenação explora diversas dinâmicas de um teatro coletivo, alcançando os contornos míticos propostos pelo texto. Macunaíma torna-se o espetáculo brasileiro mais visto e aplaudido no exterior, visitando inúmeros países em todos os continentes, participando de festivais e ganhando prêmios internacionais. Aqui, é reconhecido como um marco da encenação. Espetáculo que inaugura uma abertura para o trabalho de jovens diretores. Esses, na década seguinte, construirão seus espetáculos a partir de um trabalho cênico com os atores, sempre com uma leitura muito autoral e que dialoga com as mudanças introduzidas por Antunes Filho.”

A continuidade da pesquisa resulta em outros trabalhos memoráveis, como Nelson Rodrigues – Eterno Retorno (1981), Nelson 2 Rodrigues (1984), Romeu e Julieta (1984), que trazia trilha sonora com canções dos Beatles e que lançou os talentos de Giulia Gam e Marco Antonio Pâmio, Hora e a Vez de Augusto Matraga (1986), baseada na obra de Guimarães Rosa, Xica da Silva (1988), de Luís Alberto de Abreu, e Paraíso Zona Norte (1989), novamente Nelson Rodrigues.

 

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