CLÓVIS FERREIRA/ESTADÃO
CLÓVIS FERREIRA/ESTADÃO

Antunes Filho foi o professor de todos os artistas de teatro

Do hospital, ele dizia a um amigo que ‘Bonitinha, Mas Ordinária’, de Nelson Rodrigues, seria seu próximo espetáculo

Felipe Hirsch, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2019 | 22h16

Quando me diziam que o Antunes Filho dos anos 2000 não era mais o Antunes dos anos 1970 e 1980, eu costumava responder que o mestre nos dava agora segundos verticais e não mais as obras épicas que ele nos apresentou naquelas décadas. Eu costumava a responder perguntando se haviam recentemente assistido o Policarpo Quaresma (sapateando em formigas sob o hino nacional), A Pedra do Reino, Foi Carmem, todas obras primas do teatro brasileiro. 

Mesmo em qualquer das últimas obras do Antunes estava ali, esperando por nós, o segundo mágico que, é claro, variava conforme a dedicação e percepção de cada indivíduo da plateia. Um segundo capaz de inverter a orientação da contemplação da obra, levar você a mergulhar naquele momento, gravá-lo na memória e nunca mais esquecê-lo. Um instante vertical, profundo. 

Por exemplo (eu nem me lembro em qual de suas últimas obras), um coro feminino sai do palco pelo lado direito, levando suas vozes, cruza todo o fundo do cenário e se dissipa pelos bastidores da esquerda, afastando o som com uma delicadeza que só a gravidade do Antunes era capaz. Acredite ou não, eu me lembro desse momento quase todos os dias. 

Vi uma peça dele pela primeira vez no final da década de 1980, Paraíso Zona Norte, já com o Luis Melo, e a partir daí, acho que assisti todas, com exceção da última. Nova Velha História (com chapeuzinho vermelho, lobo e tudo mais), Trono de Sangue (sobre Kurosawa), Vereda da Salvação (remontagem de 1964), Gilgamesh (com um imenso monstro mecânico de néon, eu vi isso?), Drácula (com um coro de meninas fotografando os vampiros, pode ser melhor?), e tantas outras. 

Recentemente, quando estava preparando FIM no Sesc Consolação, fiz algumas visitas a ele no CPT, disse que havia escolhido o Anchieta porque a peça era uma espécie de fantasmagoria, uma arqueologia, a memória do espaço, e que aquele palco estava cheio desses espectros criados em sua cabeça. Nesse minuto ele fez um longo silêncio e me respondeu com uma pergunta: você está bem? Eu ri, disse que sim (talvez tenha mentido), ele me estendeu sua enorme mão, me puxou para seu peito, e sorriu com uma doçura inversamente proporcional a sua conhecida severidade. E assim nos despedimos. Foi a última vez que falei com ele. Depois, ele foi assistir ao FIM, mas não conversamos mais.

O que é mais grave na perda desses homens, Antunes, Domingos, Abu, não é a morte em si, afinal eles tinham quase 90 anos, é que eles vão embora em um momento dificílimo. Sei que eles passaram ao longo de suas vidas por outros momentos terríveis também, lutaram contra o golpe de 64, viveram a ditadura, não conseguiram morrer em paz com esse país, pelo menos nessa perspectiva sócio-política. Mas eles são alguns dos pilares mais fortes do que conhecemos genericamente como cultura brasileira. 

Três gerações não podem ignorar quem foi Antunes Filho. Mas em um momento, onde esse governo obscurantista parece espalhar a incompreensão, preconceitos, estupidez, e a mesma elite financeira parasita esse fenômeno (enquanto ele sobreviver), o vazio que esses artistas deixam é maior do que o normal. Cineastas estão sendo perseguidos, artistas estão sendo censurados, todos estão sob ameaça, estamos andando a passos largos rumo a uma outra idade média sem nunca ter nos livrado direito da primeira, seguimos o mesmo país escravocrata, o mesmo país exterminador, um país onde militares aceitam milicianos, um país onde professores estão sendo ameaçados pelos próprios alunos. E Antunes Filho sempre foi o professor de todos nós artistas de teatro. Nosso orientador.

No Brasil existem dois teatros que são tomados pela energia de seus criadores. O Teatro Oficina de Zé Celso e o Teatro Anchieta de Antunes Filho. Não é modo de dizer. Quem entra lá, sente. Recentemente, vi pouco mais de dez minutos da montagem do Antunes de Romeu e Julieta, da pior maneira possível, em vídeo, e quando começou a tocar She’s Leaving Home, com a Giulia (Gam) novinha em cima de uma escada, meus olhos encheram de lágrimas. É simples assim. Trinta e cinco anos depois. Esses homens escutaram ensinamentos de italianos e poloneses e inventaram o teatro brasileiro. E este, necessariamente, terá que ser também ibérico, indígena, africano e latino-americano. 

Por fim, eu cometo a indiscrição de contar aqui, para o bem da fábula, o que um amigo próximo que visitou o Antunes todas as manhãs no hospital, nesses últimos dias, me contou. Ele me disse que o Antunes se perguntava se, quando saísse dali em breve, deveria mesmo montar Bonitinha, mas ordinária. Era o seu novo projeto. Ou mais um das centenas que ele estudava e abandonava. Não conheci homem que amasse mais o teatro. Essa é a moral. Não veremos a Bonitinha, mas ordinária , do Antunes. Não sentaremos mais em uma plateia para assistir a mística extraordinária de Antunes Filho. 

FELIPE HIRSCH É DIRETOR

Tudo o que sabemos sobre:
Antunes Filho

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.