SERGIO CASTRO/ESTADÃO.
SERGIO CASTRO/ESTADÃO.

Antonio Fagundes comemora 50 anos de carreira com 'Tribos'

Ator divide o palco do Teatro Tuca com o filho Bruno Fagundes 

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2015 | 03h00

Foi como uma moderna viagem do capitão Tornado – como no filme de Ettore Scola, que acompanha as aventuras de uma festiva trupe mambembe dos Pireneus à corte parisiense na época da Renascença, a companhia formada por Antonio e Bruno Fagundes e outros 15 artistas perambulou durante um ano com a peça Tribos, passando por 31 cidades brasileiras e outras 7 em Portugal. Mais de 200 mil espectadores acompanharam o espetáculo que volta agora ao seu ponto de origem, o Tuca, onde estreou em 2013.

E a data da volta não poderia ser mais significativa: sexta-feira, 11 de setembro, dia em que serão lembrados os 14 anos dos ataques terroristas ao World Trade Center e também, mais festivos, os 50 anos do Tuca. “De quebra, já inicio a comemoração do cinquentenário da minha carreira profissional, que acontece no ano que vem”, comenta Antonio, que estreou com Farsa do Cangaceiro, Truco e Padre, de Chico de Assis.

Nesse meio século artístico, ele atuou em grandes clássicos da dramaturgia nacional e mundial. Encenou Brecht (Círculo de Giz Caucasiano), Tennessee Williams (Gata em Teto de Zinco Quente), Dario Fo (Morte Acidental de um Anarquista), Shakespeare (Macbeth) e Rostand (Cyrano de Bergerac), além de Millôr Fernandes (A História é uma História), Carlos Queiroz Telles (Muro de Arrimo), Consuelo de Castro (Caminho de Volta), Lauro César Muniz (Sinal de Vida) e até um texto próprio, Pelo Telefone.

Ainda que essencialmente ator de teatro, Antonio Fagundes também alimenta uma enorme carreira cinematográfica e televisiva. O tempo, além de aprimorá-lo artisticamente, também permitiu que cultivasse um senso crítico sobre a produção cultural no Brasil, que resultou tanto na criação da Companhia Estável de Repertório (responsável por importantes experimentalismos teatrais nos anos 1980) como agora abandonasse o uso das leis de incentivo (alvo de suas críticas constantes) para se aventurar no trabalho cooperativado.

E Tribos é o primeiro fruto da reunião de seu talento com o do filho, Bruno, e de outros atores como Arieta Correa, Eliete Cigaarini, Guilherme Magon e Maíra Dvorek, além da direção de Ulysses Cruz, da iluminação de Domingos Quintiliano e dos figurinos de Alexandre Herchcovitch, entre outros. “Decidimos não buscar patrocinadores tampouco inscrever a montagem nas leis de incentivo”, conta Fagundes pai. “Bruno e eu investimos o capital inicial acreditando que a bilheteria sustentaria a temporada do espetáculo.”

Foi o que aconteceu – depois de estrear em setembro de 2013 no Tuca, Tribos iniciou sua turnê nacional e por Portugal, somando 253 apresentações. “Vivi uma experiência de excursionar com uma peça que só conhecia das histórias do meu pai”, comenta Bruno que, junto do grupo, colecionou histórias sensacionais – desde um produtor local sumir com a verba e sem deixar reserva de hotel até a incrível disposição dos atores de apresentarem três sessões em um mesmo dia, em Bauru.

“Conseguimos também, em Portugal inclusive, contar com tradutores da linguagem de deficientes auditivos”, lembra Antonio. Explica-se: comédia perversa escrita pela britânica Nina Raine, Tribos conta a história de um rapaz surdo, Billy (Bruno), que nasceu em uma família de ouvintes. E que família! O pai, Christopher (Antonio), é um homem culto, professor, mas que nunca admitiu a surdez do filho. Resultado: além de blasfemar e xingar com vontade, ele obrigou a mulher, Beth (Eliete), a ensinar o garoto a ler lábios e a responder vocalmente.

A família disfuncional é completada pelos irmãos de Billy: Daniel (Magon), lunático que ouve vozes estranhas, e Ruth (Maíra), moça fracassada, cantora de ópera em pubs. A história toma um rumo inesperado com a chegada de Sylvia (Arieta), garota que está ficando surda e, ao se enamorar de Billy, ensina-lhe a linguagem de sinais, o que desmonta a forma de comunicação montada por Christopher em sua casa – por conseguinte, seu comando sofre uma fratura.

“O sucesso da excursão prova que fizemos certo”, constata Antonio. “A política cultural do País, graças às leis de incentivo, é determinada pelos gerentes de marketing das grandes empresas. Isso precisa ser quebrado. Já apontamos um caminho.”

Também o Tuca completa cinco décadas de atividade

Em abril de 1965, os alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo sabiam da novidade por meio de cartazes espalhados pelo câmpus: “O Tuca vem aí”. Era o teatro universitário que nascia e a peça escolhida para a estreia foi Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Além de escrito por um brasileiro, o texto tratava de um tema atual, o que agradava ao anseio dos estudantes.

A montagem envolveu a participação de alunos de várias áreas, como geografia, direito, letras e psicologia. No dia 11 de setembro de 1965, o Auditório Tibiriçá foi inaugurado com a peça. 

Com o acirramento da ditadura militar, o Tuca tornou-se ponto de encontro de manifestações artísticas, especialmente de shows e peças que contestavam o regime. Em 22 de setembro de 1977, cerca de 900 policiais invadiram o câmpus da PUC para reprimir uma manifestação de cerca de 2 mil estudantes, que estavam diante do Tuca. Quase mil deles foram detidos.

Em 1984, o teatro sofreu dois incêndios, que o destruíram quase completamente. Reaberto em 1986, funcionou em condições precárias até 2002, quando foi fechado. Reconstruído, reabriu em agosto de 2003.


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