MAURO KURY
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'Angels In America' segue como um espetáculo atual, mas difícil

Primeiro percalço da montagem é a duração da peça; o segundo, sua cenografia

Maria Eugênia de Menezes ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 03h00

No fim do século 20, os EUA não viviam seu melhor momento. A Aids se espalhava como uma epidemia incontrolável nas grandes cidades e o governo conservador de Reagan prenunciava um futuro turbulento, com apoio a movimentos armados pelo mundo. Ambientada nesse contexto, Angels in America tem tudo para parecer uma peça datada – e é mesmo –, mas ainda diz muito a respeito dos conflitos que não conseguimos solucionar. 

Adaptada como minissérie pela HBO e merecedora de premiadas versões em Londres e na Broadway, a obra de Tony Kushner ganha sua primeira montagem integral no Brasil pelas mãos de Paulo de Moraes e da sua Armazém Companhia de Teatro. Em cartaz no Sesc Vila Mariana – no teatro recentemente batizado como Antunes Filho – a montagem é grandiosa e exige esforço redobrado, tanto do elenco quanto do público. O primeiro percalço é a duração: ainda que as mais de sete horas do original tenham sido reduzidas, o espetáculo traz duas partes de duas horas e meia, cada uma. Além disso, é preciso estar atento para não se perder diante da miríade de personagens e do sem-número de referências políticas e históricas, que talvez soem pouco acessíveis à plateia mais jovem. 

O estranhamento não termina aí. A elementos do drama realista, Angels in America mistura aspectos fantásticos, como a aparição de anjos e fantasmas. Vencidas essas primeiras dificuldades, porém, a peça pode ser acompanhada com prazer e interesse. A prosa de Tony Kushner – que mereceu tradução de Maurício Arruda Mendonça – é um deleite. O autor, que recebeu o Pulitzer por esta obra e conquistou um lugar entre os melhores dramaturgos de língua inglesa, vai dos conflitos geopolíticos aos dilemas metafísicos, costurando tudo com mordacidade e graça.

Na Nova York dos anos 1980, Prior Walter (Jopa Moraes) descobre ser HIV positivo. Assim que surgem os primeiros sinais da doença, é abandonado pelo namorado Louis (Luis Felipe Leprevost), um judeu de esquerda. No hospital, fica aos cuidados de Belize (Thiago Catarino), um enfermeiro trans. Lá, recebe a visita de um anjo (Marcos Martins), que quer transformá-lo em um profeta, na esperança de convencer Deus, desaparecido desde 1906, a retomar o seu lugar no céu. A essa trama, unem-se as histórias de um casal mórmon em crise no casamento e de um inescrupuloso advogado, que também descobre ter Aids e tenta esconder sua homossexualidade. 

Para dar conta de tantas situações, a cenografia das duas partes (O Milênio se Aproxima e Perestroika) busca uma configuração neutra. Vale-se apenas de um grande banco e de um praticável que pode ser alocado de diferentes maneiras. Os deslocamentos pela cidade ou as alucinações dos personagens ganham corpo em animações, projetadas em uma tela inclinada sobre o palco. O resultado alcançado não parece tecnicamente satisfatório. Vale ponderar que Kushner propõe cenas de difícil execução. Qual seria, afinal, a melhor maneira de mostrar um anjo que entra pelo telhado de uma casa? Mas, sem dúvida, a montagem se sai melhor quando opta por outros recursos, como a iluminação e o som. 

Em 30 anos de história, o grupo, que nasceu em Londrina e hoje está sediado no Rio de Janeiro, sempre se distinguiu pelo apuro no trabalho com os atores. É apoiada sobre esse alicerce que a encenação cativa o espectador. Dividindo-se entre sete personagens, Patricia Selonk se destaca, montando e desmontado cada uma das novas figuras com apenas simples trocas de figurino, diante do público. Cabem a ela papéis tão díspares, como o de um velho rabino, o da mãe do advogado mórmon e o de Ethel Rosenberg, fantasma de uma judia acusada de ser espiã comunista. 

Entre figuras fantasiosas e cenas de delírio, o texto conecta-se fortemente ao real trazendo menções a duas que, de fato, existiram – Ethel, que foi executada nos piores anos do macarthismo, e o jurista que influenciou em sua condenação, Roy Cohn. A interpretação de Sergio Machado para o advogado sem nenhum caráter responde por alguns dos mais interessantes momentos da obra, tanto em seus arroubos de soberba quanto em seu desamparo. É também observando esse personagem que encontraremos pontes bastante sólidas entre questões aparentemente superadas e a contemporaneidade. Roy Cohn, vale lembrar, foi não apenas advogado pessoal, mas também mentor de Trump. Nessa história, ambientada no longínquo ano de 1985, qualquer semelhança com o presente pode não ser mera coincidência. 

ANGELS IN AMERICA. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. 1ª parte: 6ª, 21h. Sáb., 18h. 2ª parte: sáb., 21h. Dom., 18h. 'R$ 30 (por parte). Até 2/6

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