Luca Del Pia
Luca Del Pia

Angélica Liddell e sua Medeia do século 21 na peça ‘Génesis 6, 6-7’

Atriz e dramaturga espanhola traz peça para São Paulo, com apresentações no Sesc Pinheiros

Ubiratan Brasil, Impresso

20 de setembro de 2017 | 06h00

Em uma passagem da Bíblia, é revelado um momento delicado. “Então, arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: ‘destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até o animal, até o réptil, e até a ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito’”, diz um trecho do Velho Testamento. A citação traduz com perfeição a insatisfação com que a dramaturga espanhola Angélica Liddell acompanha a trajetória humana, a ponto de aquela passagem inspirar seu espetáculo Génesis 6, 6-7, que será exibido no Sesc Pinheiros nesta quarta-feira, 20, quinta, 21.

Trata-se da terceira parte da Trilogia do Infinito, formada ainda por Esta Breve Tragedia de La Carne e Qué Haré Yo Con Esta Espada?, esta última encenada no Festival Mirada e também no mesmo Sesc Pinheiros em 2016. Angélica buscou no Livro do Gênesis a explicação básica de seu teatro: o homem destrói pelo amor e não pelo ódio. Daí sua admiração pelo mito de Medeia que, inconformada com o descaso do marido Jasão, mata os próprios filhos. É Medeia quem capitaneia o espetáculo, buscando um fio que une a figura de Cristo e a de Dionísio.

São dores semelhantes a essa que a dramaturga catalã foca em seu espetáculo, uma forma de materializar símbolos na busca do homem em tentar relativizar suas inquietudes adormecidas. “A eloquência nasce da ferida. Isso é a criação. O trabalho é o amor”, disse ela, em entrevista por e-mail ao Estado, publicada no início do mês. “A poesia é a grande rebelião contra a violência. Nosso terrorismo nasce da beleza.”

Para Angélica Liddell, só se pode melhorar o ser humano destruindo-o, ou seja, violando a lei. E isso só pode ser feito, segundo ela, pelo aspecto moral da poesia. Para liberar sua ficcional tendência homicida, a autora trabalha com a angústia nascida do dilema estabelecido entre a palavra e a ação, ou seja, traduzindo para a linguagem artística, entre a poesia e a vida. Em Génesis, Angélica se lança na tarefa de transformar a violência real em poética e, com isso, atingir diretamente o público.

“Com a Trilogia do Infinito, Angélica Liddell continua dançando para não morrer, como uma Medeia estrangeira no século 21”, comenta a crítica espanhola María Velasco, do site Primero Acto. “Pela tragédia, por seu Deus, ou – como todos os leitores do Antigo Testamento sabem – pelo sexo e pela violência.”

Ainda em cartaz. Outro trabalho de Angélica Liddell, a peça Hysterica Passio, continua em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, às segundas e terças-feiras, às 20h, com entrada gratuita. Com direção de Reginaldo Nascimento e estrelado por Alessandro Hernandez e Amália Pereira, em intensa interpretação, o espetáculo conta a história de Hipólito que, aos 12 anos, resolve se vingar dos pais, a esquálida enfermeira Thora e o pálido dentista Senderovich. O rapaz os acusa de maus-tratos. Novamente aqui, Angélica não faz concessão ao espectador ao expor com crueza as violências familiares habitualmente camufladas.

“A encenação abusa da teatralidade e explicita a angústia desses seres numa interpretação que transita com a alegoria e brinca com os expedientes do circo de feras e de horrores para tentar dar cor a uma vida de dor”, comenta Nascimento.

Aqui, a entrevista com a dramaturga espanhola Angélica Liddell.

Gênesis nasceu da relação entre cultura hebraica e cultura cristã?

Nasce de uma necessidade interior, um vazio profundo e uma nostalgia da fé. Mas a gênese representa um problema muito complexo, a palavra como descendência. É aí que as religiões se separam. Os hebreus ainda estão esperando o Messias, a genealogia sagrada não está completa. Para os cristãos, o filho da promessa veio, é Cristo, a prole é completada, as profecias foram cumpridas, mas não a redenção. Não há redenção. Temos que continuar lutando com Deus. Devemos realizar o sacrifício repetidas vezes, ou concordar com a ira do Criador e devolver o mundo à escuridão. Para estarmos sozinhos, devemos devorar o mundo.

A busca da beleza é um objetivo?

Tarkovski disse que a beleza é uma obrigação e que fazer poesia era como rezar. Sempre tenho isso em mente. Não há vida espiritual sem beleza. Essa forma é a mais difícil de se encontrar. É o grande problema da criação. O belo.

Sua arte é uma maneira de fazer política?

Não, em absoluto. No palco, não estou interessada no homem político, mas no homem poético, o homem sozinho, absolutamente só e indefenso diante de tudo o que ele não consegue entender: a morte, Deus e o amor. O político é escravo da ideologia. O homem poético é feito a partir da liberdade de pensamento. Estou interessada no conflito do homem consigo mesmo, nessa angústia diante dos transes fundamentais da vida.

Você está mais interessada em quão diferente é o passado do presente, ou em como diferentes idades podem ser semelhantes?

Estou interessada na antiguidade das paixões. As propriedades da condição humana que nos definem desde Gilgamesh. Eu me interesso pela origem da tristeza humana, pelo primeiro enterro, a primeira proibição e o primeiro grito.

David Sloan Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Construction, ressalta que estamos nos construindo e reconstruindo constantemente para atender às necessidades das situações em que nos encontramos. Ele acredita que fazemos isso com a orientação de nossas memórias do passado e nossas esperanças e medos para o futuro. O que você pensa sobre isso?

Penso que nos sentimos perdidos e desorientados, forçados a não ter alma por causa de uma constante explicação mecanicista e materialista do mundo, e que só o medo nos faz sentir algo, só o medo nos faz deixar a apatia e só o medo nos empurra à ação. Acima de tudo está o medo.

GÉNESIS 6: 6-7

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195 

Tel.: 3095-9400

4ª (20) e 5ª (21), 20h. R$ 40

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