Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Andrea Beltrão se arrisca, sem rede de proteção, em 'Antígona'

Montagem de um texto clássico pode significar, na trajetória de um artista, o coroamento de uma carreira

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

05 de junho de 2017 | 20h30

Para sua tradução da peça Antígona, Millôr Fernandes escreveu um prólogo. É um texto breve e bonito, no qual resume a trama, mostra seu interesse para o leitor de hoje e condensa o grande enigma da obra, ainda insolúvel: “O mais difícil da luta é descobrir o lado em que lutar”.

Com 40 anos de carreira, Andrea Beltrão se lança com destemor nessa batalha para compor a sua Antígona. Em cartaz no Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245) até 18 de junho, a atriz se põe em situação de risco ao apresentar uma versão muito particular da tragédia de Sófocles, cuja dramaturgia ela assina ao lado do diretor Amir Haddad. 

A montagem de um texto clássico pode significar, na trajetória de um artista, o coroamento de uma carreira. Momento em que, seguro de si, o grande intérprete repisa para a plateia seus talentos e suas capacidades. O que Andrea Beltrão faz com esse espetáculo chega a ser o oposto disso. Pelo grau de insegurança e de incertezas a que se submete.

Descendente do mítico rei que assassinou o pai e se casou com a mãe, a protagonista tornou-se historicamente um símbolo da desobediência. Seu crime: contrariar as ordens do rei Creonte, seu tio, que proibiu que seu irmão Polinices, morto em batalha, fosse enterrado segundo os rituais fúnebres. Mas nesse, que é o seu primeiro trabalho solo, a atriz se põe a perscrutar não apenas a história de Antígona, mas de toda a sua funesta árvore genealógica. 

Nesse jogo de idas e vindas no tempo, Andrea incorpora todos os personagens. Faz o papel do coro. Deixa claro como essa filha da união incestuosa se liga a mitos e deuses que a precederam e sucederam, passa por Zeus, por Hera, por Dionísio, por Cadmo. Mergulha no cerne da tragédia: culpa e punição, transgressão e destino. 

A precariedade de meios representa o perigo maior para essa encenação. Mas também seu maior acerto. Não há cenário - apenas algumas cordas com os nomes dos mitos escritos em folhas de papel. Não existem mudanças significativas de luz ou figurino. Não resta ilusão possível. Tudo muito exposto, muito à mostra, e por isso mesmo fascinante. É perturbadora a simplicidade com que ela se lança a esse tour de force. E a plateia reage siderada à visão de tal corda bamba: com a equilibrista/atriz sempre à beira do precipício, sempre próxima da queda. 

Amir Haddad é um veterano do teatro de rua e traz essa lógica do imprevisto para a sala de espetáculos. O diretor demonstra sua disposição em explorar os espaços de forma distinta, sem apegar-se a convenções, fazendo com que Andrea circule pela sala. Consegue, assim, aprofundar a comunicação entre intérprete e espectadores. Toda montagem soa como uma conversa com o público. Despretensiosa. Didática, sem ser professoral.

A despeito da aparência de despojamento, o território pelo qual Andrea Beltrão envereda é árido. Muito mais próxima dos procedimentos do teatro performático (ainda nebulosos para boa parcela da audiência) do que propriamente da representação de uma história, a atriz precisa dar conta de uma matéria nada trivial. No universo de Sófocles, não encontramos o equilíbrio entre o divino e o justo que havia em Ésquilo. Estamos, agora, a lidar com a essência do gênero trágico: o enfrentamento de duas vozes (Antígona e Creonte), ambas legítimas e crentes da justiça de suas causas. 

Como ser direto sem resultar reducionista? Muito do enredo escapa a essa montagem ligeira de 60 minutos. Há também um fascínio meio tolo pela cultura pop, com batalhas entre deuses a emular embates de super-heróis de HQs. Mas entrega-se o essencial. E a mensagem de Antígona vem em hora oportuna: há limites para a autoridade do Estado, nos alerta essa história tão antiga. É difícil sustentar leis que não encontram lastro na realidade de seu povo. A tenacidade de um governante nem sempre significa coragem, pode ser apenas prepotência. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.