Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Andrea Beltrão estreia a peça 'Antígona', que confirma atualidade do texto de Sófocles

Em cena, frases despertam curiosidade do público, que interage com atriz

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2017 | 07h00

Andrea Beltrão prepara-se para novas surpresas, com a estreia de seu monólogo Antígona, neste sábado, 13, no Sesc Consolação. “Já me apresentei em sala pequena, no Rio, depois em uma enorme, em Curitiba, onde fiz quase 600 selfies, e agora será em um espaço com tamanho médio”, diverte-se ela. A área tem relativa importância - afinal, Andrea, uma das mais completas atrizes brasileiras, recebe o público na entrada e, durante a apresentação, estabelece um diálogo silencioso com as pessoas, que reagem com olhares atentos, risos satisfeitos, ar de entendimento.

O monólogo foi construído como uma conversa em que Andrea se atira de corpo e alma no fascinante mundo criado pelo dramaturgo grego Sófocles há mais de 2 mil anos - escrita no ano de 441 a.C., Antígona mostra como a filha de Édipo e Jocasta quer enterrar dignamente, e de acordo com a religião, seu irmão Polinice. Com isso, porém, ela contraria Creonte, rei da cidade de Tebas, que havia determinado que o corpo deveria permanecer insepulto. Antígona desafia Creonte, forçando o enterro do irmão, mas termina presa e obrigada a responder por tal desacato.

Para entrar nessa empreitada, Andrea contou com a precisa direção de Amir Haddad que, experiente em teatro encenado na rua, em meio ao público, criou uma encenação que, apesar de simples, é extremamente funcional, privilegiando a palavra. E Andrea transita à frente de uma parede onde estão afixados os nomes de todos os descendentes de Antígona, uma árvore genealógica que chega até Zeus, o deus supremo.

“Tudo o que está no texto original era exatamente o que eu e o Amir queríamos dizer nesse momento”, conta Andrea, citando as frases que mais provocam comoção no público, como: “Em mim, só manda um rei, o que constrói pontes e destrói muralhas”, alusão direta ao presidente americano Donald Trump. Ou ainda: “Apenas o governante que respeita as leis de sua gente e a divina justiça dos costumes mantém a sua força, porque mantém a sua medida humana”. São frases que, tão logo pronunciadas, provocam um frisson na plateia, seja a do acolhedor teatro Poerinha, no Rio, com seus 40 lugares, seja na imensidão do Teatro Guaíra, em Curitiba, ocupado por 600 pessoas em completo e respeitoso silêncio.

O exercício serviu para Andrea lapidar a própria interpretação. “Com a mudança de espaço, percebi que as pausas tinham de ser diferentes. Afinal, a peça se alimenta de descobertas”, comenta a atriz, que utiliza o texto traduzido por Millôr Fernandes. “Saio revigorada por falar sobre assuntos em que acredito e que tocam tantas pessoas ao mesmo tempo.”

O motivo é simples, pois, em suas tragédias, Sófocles mostra dois tipos de sofrimento: o que decorre do excesso de paixão e o que é consequência de um acontecimento acidental. E Antígona apresenta, entre outros detalhes, o conflito entre as leis dos deuses e as leis dos homens. “O texto atravessa o tempo e segue com uma atualidade incrível”, constata Andrea que, ao contrário do que possa parecer, não planejou todo esse caminho certeiro.

Foram surpresas colhidas ao longo das semanas. Quando apresentou Antígona no bairro do Méier, no Rio, onde nasceu Millôr Fernandes, Andrea leu um texto em que o escritor/tradutor mostrava a atualidade das frases de Sófocles. Causou enorme comoção. “As pessoas se desarmam diante do impacto. Certa vez, uma senhora muito desconfiada, com dificuldade para enxergar, disse que tinha vindo comprovar a eficiência do espetáculo. Ao sair, disse: ‘Isso não é para picareta, não’. Foi o maior dos elogios.”

ANTÍGONA

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel.: 3234-3000. 6ª e sáb., 21h. Dom., 18h. R$ 15 / R$ 50. Até 18/6

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