Arquivo pessoal
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Análise: Quem estudar a obra de Zé Celso verá o que tem de ritos da Igreja Católica

'Somos dois fellinianos, Rimini, Araraquara...'

Ignácio de Loyola Brandão, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 Março 2017 | 05h00

Zé Celso sempre foi diferente. Possuía uma ironia fina, uma capacidade aguda de observação, sacava veloz o ridículo de situações ou pessoas. Cursamos parte do Primário na mesma escola católica, o Colégio Progresso de Araraquara. Os Corrêa eram uma família privilegiada pelo talento. Ana, uma das irmãs, é historiadora, Lala, artista plástica, Luiz Antonio foi diretor e ator teatral, João Batista é arquiteto. 

Nas classes, fomos alunos de dona Noemi, dona Daysi, e principalmente dona Wanda, que nos marcou. Linda, morena de cabelos longos, quando exasperada por alguma situação, jogava os cabelos para trás, exclamando: “ah! que coisa louca!” Imensamente teatral, uma atriz. Ficávamos fascinados. Zé soltava a gargalhada que o marca até hoje e aplaudia. A atriz Ittala Nandi tinha algo de dona Wanda no Oficina. Aos sábados, havia uma cerimônia, quando se reuniam todas as classes, para a entrega das medalhas por bom comportamento, “honraria” com que os pais sonhavam. Eles. Não nós. Zé me dizia: “No dia em que ganhar a medalha, não falo mais com você.”

Prenúncios do rebelde, do inconformado, do “outsider” (foi Zé que me indicou a leitura de Collin Wilson) que ele foi, seria, é e será para sempre. Marca do espicaçador que lancetou sempre a sociedade. Raras vezes na arte brasileira vi alguém tão coerente com seu pensamento, ideias, modo de ver e viver, por isso o respeito e admiro. Com todos os altos e os muitos baixos, Zé jamais arrepiou caminho. Sofreu horrores, da ditadura, da crítica, dos que não o compreendem.

Quantas vezes não saíamos das aulas do Colégio e mais tarde do Instituto de Educação Bento de Abreu (hoje EEBA) e subíamos a Avenida Espanha rumo à casa dele, na rua Sete (a casa ainda está lá) onde, num quartinho nos fundos, que servia de despejo, de sala de costura, de passar roupa, Zé montava uma caixa, que era seu teatrinho, e com bonecos de papelão, sobre os quais ele colava figuras de revistas, de jornais, criava histórias e personagens. 

Aquele Zé se transformava, excitado, ansioso, maluco, inventando historias, falas, brigando com os personagens. Primórdios do diretor exigente/duro/intolerante que no futuro atazanaria atores que o odiariam ou se apaixonariam. Na maioria, mais se apaixonavam e o seguiam pela vida. 

Desde criança, havia nele algo messiânico que eu admirava e invejava. Queria ser daquele jeito, ousado, atirado, irreverente, controlador, centralizador. Fomos os dois educados por mães amigas, católicas, devotas, catequistas. Dona Lina, mãe dele, e Maria do Rosário, a minha, pertenciam à Associação de São José, usavam vestidos negros e levavam uma fita amarela. Devotas, as duas nos entregaram a São José para que nos protegesse na vida. Por pouco, Zé Celso não nasceu no dia do santo, que é 19 de março.

 

Anos atrás, o Sesc em Araraquara teve a ideia de reunir em um palco Zé e eu. Foi a primeira e única vez em nossas vidas que estivemos junto no mesmo palco em nossa terra. Diálogo divertido, bem humorado, maluco, sem papas na língua. 

Eu perguntava: Zé, lembra-se da primeira questão do catecismo? Quem é Deus? E ele: Um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra.” 

Ele: Lembra-se da Rosanilce? Eu: Professora de espanhol e latim, mignon, sensual, que provocou celeuma convocando todos para uma conversa sobre masturbação no salão nobre. Uma doideira no IEBA. Zé acrescentou: No mesmo salão, Sartre fez sua célebre Conferência de Araraquara, em 1960, sobre existencialismo e marxismo, todo teatro Oficina estava lá com a Albertina Costa traduzindo.

 

Comecei a cantarolar: Quando o carteiro chegou, e o meu nome gritou, com uma carta na mão... Zé continuou, cantou e repetiu a canção Mensagem, emblemática de Isaura Garcia, que idolatrávamos. Por outro lado, não me lembro se ele era fã da Marlene ou da Emilinha Borba, acho que estava mais para Marlene. Mas cultuava Nora Ney. 

Alguém da plateia (provavelmente de nossa idade) gritou: “E a Emilia Macaca?” Famosa prostituta que convocava os meninos (nós), pedia um dinheiro, e fumava pela vagina. Um assombro. Zé nunca colocou a cena em uma peça, nem eu em livro. Ninguém perde por esperar. Nem Fellini viu coisa semelhante. Aliás, somos dois fellinianos, Zé e eu. Rimini, Araraquara. Quem estudar a obra total dele vai ver o que tem de Fellini, de ritos da igreja católica, principalmente das antigas liturgias de Semana Santa (os filmes cafonas exibidos na sexta-feira santa nos encantavam), dos circos e pavilhões que passavam pela cidade.

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