ACERVO ESTADÃO
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Análise: O conservadorismo revolucionário do Grupo Tapa

Muita gente torce o nariz para a dedicação do grupo ao cânone. Há quem ache tudo isso muito velho ou fora de moda. Eis uma armadilha.

Maria Eugênia de Menezes / ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2018 | 06h00

Neste país de contradições, aquilo que nasce cercado de grandes ambições, não costuma durar muito. Ao primeiro tropeço, sucumbem os projetos revolucionários. Já o que surge pequeno, sem muito alarde, tem mais chances de perseverar e pode, vez ou outra, fazer história. O Grupo Tapa foi criado de improviso, como uma brincadeira de alunos universitários, em 1979. O nome é resultado de uma sigla: Teatro Amador de Produções Artísticas. Mas, curiosamente, esse ímpeto de amadores tornou-se o mais próximo do que poderíamos chamar de companhia estável. 

Produção contínua, peças em repertório que retornam sazonalmente à temporada e uma preocupação em difundir os clássicos da dramaturgia universal e brasileira. Sobre esses pilares, o grupo formou gerações de espectadores. Para se ter ideia, Uma Peça Por Outra, de Jean Tardieu, que o grupo encena atualmente, foi montado a primeira vez pelo Tapa em 1980. Muitos títulos, portanto, são resultado de anos de acúmulo e reflexão.

É uma pesquisa um tanto na contramão do que vai o teatro brasileiro contemporâneo, que investe em dramaturgia própria e em novos jogos de cena, independentes do texto. Nesse contexto, muita gente torce o nariz para a dedicação do Tapa ao cânone. Há quem ache tudo isso muito velho ou fora de moda. Eis uma armadilha. O que em outro país não seria mais do que apego passadista, aqui se torna um verdadeiro trabalho de resistência.

Procure por um título de Chekhov, Strindberg ou Ibsen em cartaz, em São Paulo. Se encontrar, é muito provável que seja uma criação do Tapa ou de algum de seus discípulos. Sim, porque o diretor Eduardo Tolentino de Araújo inoculou em alguns atores essa dedicação aos clássicos. Intérpretes que depois se tornaram encenadores, como Brian Penido e André Garolli, e levaram suas produções na mesma toada. 

A caminho dos 40 anos de atividade, Grupo Tapa estreia 'A Cantora Careca', de Ionesco

Considerado o marco inaugural do teatro do absurdo, A Cantora Careca é o mais afamado texto de Eugène Ionesco. Nem sempre, contudo, o Tapa trabalha com os títulos mais conhecidos de grandes autores. O grupo se dá também ao trabalho de explorar facetas mais obscuras desses escritores, indo beber em “obras menores”, menos festejadas e raramente encenadas. Foi o que fez, recentemente, com Luigi Pirandello, em Amargo Siciliano, e com Tennessee Williams, em Alguns Blues do Tennessee. Ambos espetáculos concebidos a partir da junção de textos curtos e pouco conhecidos. 

O salutar anacronismo do Tapa extravasa o repertório. Se a cena teatral pode ser dividida entre espetáculos de apelo comercial e produções alternativas, o grupo não se enquadra em nenhuma das modalidades de financiamento vigentes e seguiu pelo caminho do meio. Não receber dinheiro vindo de leis de incentivo ou editais torna tudo mais complicado. Não raro, o grupo passa por maus bocados para sobreviver. Mas as dificuldades lhe deram também certa vantagem evolutiva. Quando boa parte das produções passou a prestar pouca atenção no público, a companhia não se permitiu esse luxo perigoso. Entra ano, sai ano, eles continuam de olho nas plateias, tentando capturar novos fiéis para a sua devoção aos deuses do palco.

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