VANIA TOLEDO/DIVULGAÇÃO
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Análise: Leilah Assunção trouxe a palavra das mulheres chamadas 'do lar'

Nova peça da autora estreia nesta sexta-feira, 26, no Teatro Itália

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 03h00

O teatro de Leilah Assunção é uma variação ideológica na dramaturgia da época em que começou, na passagem para os anos 1970. Uma abordagem do mal-estar existencial de setores da classe média universitária brasileira. O palco, até pouco antes, teve uma clara posição de esquerda antigolpe, que ecoou sobretudo nos espetáculos Opinião, realizado no trauma de 1964, Liberdade Liberdade (1965), os dois apresentados no Rio e em São Paulo, e toda fase musical de revisão histórica do Teatro de Arena (Arena Conta Zumbi, Tiradentes, seguida de Feira Paulista de Opinião e Castro Alves Pede Passagem). Ainda nas duas capitais, entre outras encenações, Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar.

Este enfrentamento dentro do possível estava também presente em Andorra, de Max Frisch, no Teatro Oficina (peça sobre os bodes expiatórios do totalitarismo). Resistência que seguiu até um pouco depois do AI-5 quando o peso da ditadura e suas consequências criaram um fato novo e irreversível. O tédio e a perplexidade de jovens diante de um país comandado por ideias velhas e totalitárias.

Por ser Leilah (Maria de Lourdes Torres Assunção) uma modelo de grande destaque na época, presença exuberante, perde-se tempo querendo criar uma espécie de aura novidadeira, a “colunável” culta, ave rara. Leilah já era formada em pedagogia pela USP. Foi aluna de Antonio Candido (USP) e Eugenio Kusnet (teatro). Os desfiles, a moda, eram um trabalho, e ela o fazia bem. Depois da fase dos pensionatos como recém-chegada de Botucatu – o que levou para sua ficção –, Leilah residia em um apartamento simples da rua General Jardim e integrava o grupo de jovens artistas que, todas as noites, estava no restaurante Eduardo’s, na rua Nestor Pestana, onde iniciantes e consagrados se reuniam em noites de conversas intermináveis. 

Dias da Geração 70 do teatro. Geralmente, autores nascidos no interior, ainda deslocados na capital, em empregos burocráticos. Vida apertada e o difuso de que algo precisava sair para fora. Leilah trouxe a palavra das mulheres chamadas “do lar” nos documentos e na linguagem corrente. Coadjuvantes do mundo masculino, cerceadas por valores morais estreitos (virgindade, a segurança de um “bom” casamento) e zero de pretensões intelectuais. “Rainhas do Lar”, elogio de suprema hipocrisia. Seu teatro – sempre com títulos irônicos/angustiados – deu voz a moças que precisavam sair deste beco, mesmo que pelo delírio, pela alucinação, o que acontece em Fala Baixo Senão Eu Grito, que a colocou de imediato na primeira linha do palco. Seu combate não era o das assembleias estudantis, passeatas e, logo, o trágico equívoco da guerrilha urbana que destruiria muitas vidas. A população ficou em casa e o regime não caiu. 

Também não era feminismo irritado no sentido norte-americano (Betty Friedan e Gloria Steinem), mas o lamento e a revolta de mulheres sem cidadania, sem ainda a Lei Maria da Penha, sem horizontes. Uma revolta instintiva e forte que acabou deixando marca e seguidores. Leilah escreve sobre o amor frustrado ou realizado, sem love story (como em Intimidade Indecente). Sua escrita tem algo de retórico-doméstico, poético e esperançoso, desde Vejo Um Vulto na Janela, Me Acudam Que Sou Donzela (deveria ser a sua estreia, mas foi proibida), Fala Baixo, Jorginho, O Machão, Amanhã, Amélia de Manhã (proibida) e Roda Cor de Roda, outro sucesso depois de enfrentar problemas com a censura. Há outras, todas agridoces, autoirônicas e precisas na crítica. Leilah firmou-se junto com colegas igualmente talentosos. Tem uma obra que resiste. Casou-se com um financista, tem uma filha, Camila, que já segue seus passos na literatura cênica. Volta agora depois de um silêncio imposto por problemas vários. É deles, de casamentos, que ela trata em Dias de Felicidade. 

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