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Análise: 'Gabriela' é uma liberdade sedutora e arriscada

Figura da personagem não se apaga no imaginário brasileiro

Ana Maria Machado, Especial para O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2016 | 04h00

Jorge Amado publicou Gabriela, Cravo e Canela em 1958. E a história se passa em Ilhéus em 1925. Há quase um século, portanto. Antes que palavras como empoderamento e ressignificação se associassem ao feminismo. Antes mesmo dos movimentos feministas dos anos 1960. E que as visitas noturnas de um patrão ao quarto da empregada, então celebradas como uma exaltação ao sensualismo da mulher irresistível, fossem vistas como insuportável e aviltante assédio sexual. Com a agravante de que se tratava de uma mulata cheirosa e associada a especiarias desde o título do livro, antes mesmo que ela entrasse em cena, do cheiro de cravo, da cor de canela. 

De lá pra cá, o livro já teve diferentes adaptações. A figura de Gabriela não se apaga no imaginário brasileiro. Mas vai mudando. Confirma que a arte é capaz de assegurar vida longa, e o tratamento estético dado às palavras pela literatura pode garantir uma multiplicidade de significados, na medida em que personagens e cenas, em novas leituras, adquirem novos sentidos. 

Para algumas leitoras, desde o início Gabriela guardava também em potencial o modelo de uma moça capaz de se defender, de desejar, de buscar ser dona de seu nariz. Quando o romance foi lançado, ela já tinha em si muito de uma figura libertária. Não vinha solta na história. Muito pelo contrário. Inseria-se numa linhagem feminina naquela Ilhéus machista do esplendor cacaueiro. Nessa saga, ajudava a fundar uma nova dinastia. Antes dela, os papéis podiam ser parecidos mas as mulheres eram diferentes. 

O relato destaca primeiro Ofenísia, donzela virtuosa que se apaixonara pelo imperador em visita à cidade e fora correspondida. Como o irmão impedira qualquer aproximação, acabou por morrer de desgosto. O segundo foco é sobre Sinhazinha, morta a tiros na abertura do romance ao ser flagrada em adultério pelo marido coronel. Depois vem Gloria, amante teúda e manteúda de outro coronel, mantida prisioneira na cidade enquanto ele está na fazenda. Acaba também traindo seu amo e senhor. Flagrada, depois de uma cena a portas fechadas, é expulsa da cidade com o novo amante - mas não é morta. Quando chega a vez de Gabriela, monumento ao erotismo sadio, sujeito desejante que não se resigna a objeto do desejo, os papéis começam a se inverter. Quem quer casar é Nacib, quem não quer é ela, que inicialmente se recusa a lhe dar o direito de “tomar conta do que é seu”. Enfim, casa, mas mantém sua autonomia, sai para dançar quando e com quem quer, e acaba, como as anteriores, descoberta na cama com um amante. A saída de Nacib, ambígua e malandra, é anular a esposa e transformá-la em amante, reconhecendo seu poder de sedução e engolindo sua independência. É a capitulação possível, enquanto não chegar a vez de Malvina, que jura a si mesma não se deixar prender e sai para o mundo em escolha consciente de não se deixar sujeitar.

Contextualizada dessa forma, Gabriela é uma etapa na conquista na autonomia feminina. Uma etapa tão sedutora que as adaptações por vezes correm o risco de não perceber seu poder. 

* ANA MARIA MACHADO - É escritora e autora do livro Romântico, Sedutor e Anarquista: como e por que Ler Jorge Amado Hoje,  que ganha nova edição pela Companhia das Letras.

 

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