Elisa Mendes
Elisa Mendes

Análise: Espetáculo ‘Justa’ tropeça em sua pretensão de suspense

Peça de Newton Moreno se sai bem na composição de tipos populares

Maria Eugênia de Menezes, Especial para o Estado

16 de julho de 2018 | 06h00

O estado de apatia e desesperança que impregna a política nacional não tem passado despercebido ao teatro. A preocupação com questões urbanas – que pautava as produções mais engajadas até há bem pouco tempo – se expandiu para temáticas mais amplas, esbarrando em feridas como o recente impeachment e a crescente desaprovação ao governo federal. Justa, texto de Newton Moreno para Odeon Companhia de Teatro, engrossa essa corrente e lança os olhos para Brasília e seus intestinos. 

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Na peça, que já cumpriu temporada no Rio e pode ser vista atualmente no Sesc 24 de Maio, um detetive policial às vésperas da aposentadoria (Rodolfo Vaz) recebe a incumbência de solucionar uma onda de assassinatos em série. As vítimas são senadores, deputados e ministros e as investigações o conduzem diretamente para um bordel de luxo da capital do País, conhecido como o Colégio. 

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Lá, Yara de Novaes desdobra-se para interpretar diversas prostitutas. Com um único figurino, vale-se de recursos de corpo e voz para compor cada uma das personagens. Por tratar-se de uma alegoria da situação brasileira, a peça não apresenta figuras com grande aprofundamento psicológico. É possível, portanto, que essas funcionárias do prostíbulo sejam vistas, grosso modo, como caricaturas. Ainda assim, impressiona o trabalho da atriz que precisa de tão pouco para criar tipos distintos. Alguns casos, como o da protagonista Justa, pedem dela uma composição mais cuidadosa, o que inclui uma coerência de princípios e pensamento. Tanto que, mesmo que não acredite no que é dito (seus argumentos exigem uma ética elástica), o espectador adere imediatamente à sua interpretação.

Com extensa carreira no teatro, a atriz mineira vive uma fase particularmente feliz nesse biênio 2017-2018. Recentemente, esteve em Love, Love, Love, interpretação pela qual recebeu, merecidamente, o Prêmio Shell-RJ de melhor atriz. O bom momento de Yara e a sagacidade de suas soluções para delinear as muitas personagens jogam, portanto, muito a favor da atual montagem. 

A direção encontra também um especial aliado no cenário de André Cortez, que se resume a uma bancada: menção tanto à arquitetura das câmaras legislativas quanto aos telejornais. Nesse espaço, o encenador Carlos Gradim consegue explorar bem a relação entre vídeo e cena, usando as imagens não como ilustrações do que acontece no palco e sim para instigar o espectador a expandir a cena para além do que é mostrado. 

Justa surgiu de uma vontade dos fundadores da Odin Companhia de Teatro de discutir a temática da prostituição. As leituras e pesquisas do grupo, contudo, abriram outra perspectiva, que aproximou o mote original da política, espelhando a forma como os políticos se vendem por dinheiro. Quem cuida dessa justaposição entre sexo e poder é Newton Moreno, autor reconhecido por importantes títulos da dramaturgia recente como Agreste e As Centenárias

Na construção das prostitutas e de seus diálogos, fica evidente o talento do escritor para capturar o imaginário popular brasileiro. O texto, no entanto, convence menos quando aborda os crimes do serial killer. O pretenso suspense não chega a se concretizar e as menções à estética noir são um aspecto apenas acessório na criação. Ainda mais complicadas são as inferências políticas. 

O extermínio de autoridades – com requintes de crueldade que fazem menções a seus delitos de corrupção – serve a uma compreensível catarse da plateia, que encontra um lugar para purgar suas frustrações pré-eleitorais. Não se abre, porém, nenhum flanco para uma discussão que extravase os clichês. O político segue como ser abjeto, a prostituta paira como criatura supliciada a ser redimida por sua retidão de caráter. 

JUSTA

Sesc 24 de Maio. Teatro. R. 24 de Maio, 109, República, tel.: 3350-6300.

5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$ 12/R$ 40. Até 22/7.

 

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