ARQUIVO ESTADAO
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Análise: Em sua ânsia pela autossatisfação, Ubu faz lembrar Trump

Pai Ubu é, mais do que nunca, a caricatura de nossos governantes

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2017 | 05h00

O mundo (ao menos, o mundo do teatro) nunca mais foi o mesmo. A estreia de Ubu Rei, em 10 de dezembro de 1896, soou como um terremoto: desorganizou todos os conceitos do drama, lançou pelos ares tudo o que já se havia visto no palco. Em choque com a peça iconoclasta de Alfred Jarry, a plateia do Théâtre de l’Oeuvre, em Paris, reagiu violentamente.

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Desde a primeira cena, os espectadores lançaram urros e vaias. Durante semanas, críticos estupefatos se enfrentaram nas páginas dos jornais. Tratava-se de loucura ou genialidade? A celeuma foi de tal ordem que a obra só voltaria a ser encenada com a morte do autor, mais de dez anos depois. 

Anti-herói cínico e cruel, Pai Ubu mata o rei, usurpa a coroa e torna-se soberano da Polônia. Em seu reinado, sucedem-se assassinatos, crimes e atos impensáveis de ignomínia.

A história carrega rastros evidentes de Shakespeare. Veem-se também ecos do humor negro de Gargântua e Pantagruel, os gigantes de François Rabelais. Jarry não fazia tábula rasa das tradições, mas buscava formas modernas. Com atores em figurinos estilizados e máscaras grotescas, propunha um enredo que desprezava as unidades aristotélicas e abusava da linguagem escatológica. 

Um tirânico professor de liceu teria servido de inspiração para o personagem. Mas a carapaça lançada foi vestida pela burguesia. A classe ascendente de Paris se ressentiu, via-se retratada em sua ganância desmedida. O mecanismo antecipava aquele que Bertolt Brecht viria a propor, décadas depois. Assim como no distanciamento épico, em Ubu estava vedada a identificação entre público e personagem pela via emocional. Só havia uma diferença: aquilo que o criador alemão queria que fosse feito pela razão, o francês empreendia por meio do nonsense. 

Ao inaugurar a modernidade teatral, a peça abriu espaço para as vanguardas artísticas. São seus devedores os dadaístas, os surrealistas (André Breton foi um dos responsáveis pelo resgate do autor) e, de forma mais direta, os autores do Teatro do Absurdo. Não seria exagero dizer que as sementes do Esperando Godot, de Samuel Beckett, foram lançadas naquela catastrófica estreia do século 19. 

Do ultraje inicial, pouco restou. Montagens antológicas, como a de Peter Brook (1978) e a do grupo Ornitorrinco (1985), deram ao texto o status de cânone. Mas que sentido as plateias de hoje encontrariam na criação? Já familiarizadas com os códigos da avant-garde, certamente, não responderiam com a mesma virulência, mas ainda podem se espantar.

Pai Ubu é, mais do que nunca, a caricatura de nossos governantes. Preste atenção na sua ânsia infantil pela autossatisfação, no pendor por fanfarrices. Qualquer semelhança com Donald Trump pode não ser mera coincidência. 

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