Sara Krulwich / The New York Times
Sara Krulwich / The New York Times

Análise: em 'Rent', Jonathan Larson ambienta obra à realidade e trata tabu com naturalidade

Tragicamente, na manhã do preview Off-Broadway de Rent, Jon sofre um aneurisma e falece

Álvaro Real, Especial para o Estado

19 de setembro de 2016 | 06h00

Jonathan Larson teve uma breve passagem cronológica por aqui, mas de certo sua luz e talento, não. Curiosamente, com alguma frequência, os gênios partem demasiadamente cedo. Talvez tenham, de fato, algo grande a realizar. Jon, como era conhecido por amigos e familiares, apesar de sufocado nas adversidades de uma época incompreendida e controversa, nos convidou a “medir a vida em amor”. Mais do que isso, mostrou como fazê-lo ao provar em sua própria trajetória que “ações falam mais alto do que palavras”. Essas duas citações, extraídas de suas maiores obras, resumem o legado desse grande artista, que perpetua a diferentes gerações numa língua que parece ser universal.

Nascido em White Plains, Nova York, Jon foi apresentado ao universo da arte ainda jovem. Tocava piano “de ouvido”. Cantou no coral da escola e atuou em peças de teatro. Influenciado pelo estilo rock e apaixonado por teatro musical, inspirou-se principalmente no brilhante trabalho do compositor Stephen Sondheim. Sonhava em transformar música popular em histórias e contá-las nos palcos. E assim o fez! Conquistou a bolsa integral de estudos na faculdade e mudou-se para o Lower Manhattan, NY.

Após 10 anos como garçom e um árduo caminho de tentativas frustradas na carreira de compositor, retratados no autobiográfico musical Tick Tick... Boom!, Jon é convidado por Billy Aronson a colaborar na adaptação de La Bohème, ópera que retrata a vida de jovens boêmios parisienses. Visionariamente, Larson ambienta a obra à sua realidade, tratando brilhantemente e com naturalidade os temas tabus de sua geração, como homossexualidade, vício em drogas e HIV. Energizado à pura orquestração rock-and-roll, o intitulado Rent torna-se o musical mais revolucionário da Broadway na década de 1990.

Tragicamente, na manhã do preview Off-Broadway de Rent, Jon sofre um aneurisma e falece. Seu legado porém, estava apenas começando. Ganhou diversos prêmios póstumos e eternizou-se no hall dos lendários compositores de teatro musical, ao lado de Cole Porter, Richard Rodgers, George Gershwin e de seu, antes ídolo hoje fã, querido amigo Stephen Sondheim. Tocou milhões de corações e vidas. Não tivemos a oportunidade de conhecer a lenda que se tornaria apenas o ser humano. Talvez essa seja a grande poesia. Obrigado Jon, por em seu último respiro artístico, nos ensinar que “não há outro dia senão hoje” (“no day but today”). 

É ATOR E DIRETOR DA BRAVART ENTRETENIMENTO

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