Ligia Jardim/Divulgação
Ligia Jardim/Divulgação

Análise: Assumir a condição humana é perigoso na era da intolerância

'O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu' enfrenta no Brasil uma batalha judicial por ter transformado o Cristo num transexual vivendo entre os contemporâneos

Antonio Gonçalves Filho, Impresso

20 de setembro de 2017 | 20h51

Você gosta dos temas musicais dos filmes Superman e Star Wars? Chora quando ouve Art Garfunkel cantar Bright Eyes? Pois saiba que há por trás delas a figura da transexual Angela Morley (1924-2009), nascida Wally (Walter) Stott, que, em 1972, incentivado pela segunda esposa, decidiu fazer uma operação para mudança de sexo. Angela Morley, mãe (ou pai) de três filhos era uma criminosa? Não. Ela foi a regente preferida de John Williams (assinou arranjos dos épicos compostos por ele e citados há pouco). Foi compositora disputada (de O Pequeno Príncipe, trilha para a qual foi indicada para o Oscar, A Guerra No Espelho, Dinastia), além de trompetista memorável. Tudo isso para dizer que não existe nada errado em ser transexual. Não se tem notícia que Angela Morley foi desrespeitada por sua condição. Mas outra inglesa, Jo Clifford, que também foi casada com mulher antes de fazer a transição, quase foi crucificada na Inglaterra por grupos fundamentalistas em 2009, na estreia de O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, que enfrenta no Brasil uma batalha judicial por ter transformado o Cristo num transexual vivendo entre os contemporâneos.

No país que mais mata travestis e transexuais no mundo, querem proibir uma peça em que um deles usa os textos evangélicos para pregar uma mensagem de tolerância. Não será a primeira vez que isso acontece. Em 1971, o musical Jesus Cristo Superstar provocou escândalo ao mostrar um Judas gay, traindo Jesus por ciúme de Maria Madalena. Isso se chama literatura. Nem a dupla Lloyd Weber/Tim Rice e tampouco Jo Clifford estão assinando uma biografia de Jesus, até mesmo porque nem os quatro evangelistas chegaram a um acordo sobre como retratar verdadeiramente o Cristo.

O perigo de toda essa intolerância que se manifesta em torno da peça ou de uma exposição como a Queermuseu, cancelada pelo Santander Cultural de Porto Alegre, é que começamos queimando livros e, no final, queimamos pessoas, para lembrar uma célebre frase do poeta alemão Heinrich Heine. Os nazistas foram a trágica concretização dessa profecia: primeiro foram banidos e incendiados os livros dos escritores judeus, comunistas e homossexuais. Depois, os próprios autores. Talvez seja conveniente lembrar que o Terceiro Reich perseguiu também artistas visuais, expurgando o que chamavam de “arte degenerada”, especialmente os expressionistas, reunidos numa exposição com esse título (Entartete Kunst, Munique, 1937). O que eles consideravam “arte degenerada” (Chagall, Lasar Segall, George Grosz) foi o que passou à história. Em tempo: o termo “entartet’, em alemão, refere-se a exemplares da flora e da fauna que foram modificados e não são, portanto, reconhecidos como parte de uma espécie.

Ao pedir a proibição de uma peça por mostrar Jesus como um transexual, o que os fundamentalistas exigem é justamente o expurgo de seres que fogem à norma – uma contradição, considerando a natureza sobrenatural de Jesus, distante da natureza humana. E não foi por outro motivo que a Igreja excomungou Nikos Kazantzakis, acusando-o de blasfemo por ter escrito A Última Tentação de Cristo, livro em que o Salvador abdica de sua missão na cruz. Na terra de Kazantzakis, assumir a condição humana também era perigoso.

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