TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Análise: As aquarelas de José de Anchieta possuíam uma imensa teatralidade

O traço do cenógrafo é inconfundível, o seu colorido é um colírio aos olhos, sendo suas aquarelas de um requinte excepcional

JC. Serroni, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 03h00

José de Anchieta era um cenógrafo pictórico. Em pouco mais de uma década, perdemos grandes cenógrafos: Gianni Rato, Cyro del Nero, Raul Belém, Helio Eichbauer, Alexandre Toro, José de Anchieta; este último há alguns meses. Todos deixaram suas marcas e um grande legado ao teatro brasileiro. Nenhum, no entanto, deixou um acervo de imagens, verdadeiras pinturas, que certamente mereceria uma grande exposição. Na sequência, deveriam ser digitalizados e conservados, criando-se um acervo fundamental à história da cenografia brasileira.

O Zé, como eu o chamava, pela intimidade e amizade de quase cinco décadas, iniciou sua trajetória ainda nos anos 1960. Trabalhou intensamente como cenógrafo e figurinista, com destaque no teatro, além de atuar na ópera, cinema, televisão e publicidade. Trabalhou com importantes diretores, como Boal, Antunes Filho, Antonio Abujamra, Ademar Guerra, Yacov Hillel, Ruy Guerra, mas foi, sem dúvida, Cacá Rosset seu grande diretor, parceiro de antológicas criações. Juntos, criaram obras mais que especiais, entre elas, O Avarento, Sonho de uma Noite de Verão, e O Doente Imaginário.

O traço de José de Anchieta é inconfundível, o seu colorido é um colírio aos olhos, sendo suas aquarelas de um requinte excepcional, que dava aos seus desenhos uma carga de imensa teatralidade. Sempre me chamou a atenção, e com uma pitada de inveja, o nível de detalhes de seus desenhos, onde ele conseguia imprimir nos traços e nas cores, até as expressões de um ator na cena.

Um cenógrafo e figurinista completo, que dominava a técnica com precisão, conhecendo como poucos, as ricas possibilidades da caixa cênica. Cuidadoso nas execuções de seus cenários, era também um estudioso da linguagem teatral, o que possibilitava que, conceitualmente, criasse obras de extrema profundidade.

Participamos juntos de várias jornadas: fóruns de discussão de cenografia , figurinos, iluminação e arquitetura teatral, realizamos uma grande exposição de nossos projetos no Sesc Pompeia, em 1996, e juntos também, recebemos o maior prêmio da cenografia mundial, a Golden Triga, na Quadrienal de cenografia de Praga, República Tcheca, em 1995. Convidei-o por várias vezes a ministrar aulas e palestras na S P Escola de Teatro, o que ele com sua paciência e sabedoria dominava com precisão como fazer. Foi, sem dúvida, também, um grande formador de novos cenógrafos.

Tive o privilégio de prefaciar dois livros seus: Auleum – a quarta parede e Cenograficamente, este de 2017, editado pelo Sesc. Faria um terceiro que estava a caminho, segundo ele: não deu tempo!

Espero que seus mais de 3.000 desenhos sejam conservados e disponibilizados para pesquisa. Serão de grande valia aos estudos da cenografia brasileira nos seus últimos 60 anos.

* J+C. Serroni é cenógrafo e figurinista

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