Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Análise: A violência contra a mulher em contundente encenação

Espetáculo 'Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante', de Silvia Gomez, traz atual olhar sobre os casos de feminicídio

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

28 de setembro de 2019 | 14h00

Já se fala em uma primavera feminina no teatro – tamanha é a quantidade de produções em que as mulheres passaram a ocupar funções proeminentes ou a tematizar seus conflitos e problemas. Se é esse o espírito, Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante nasceu sintonizado com o seu tempo. O espetáculo do Grupo 3 de Teatro, protagonizado por Débora Falabella e Yara de Novaes, trata da violência que atinge milhões de brasileiras. No País, o número de homicídios cai; a cifra de feminicídios só aumenta. Mas o atrativo maior dessa peça não está propriamente no mote de sua dramaturgia, mas em sua estrutura. Tão importante quanto o que se diz, é como se diz. 

É constante no percurso dessa companhia, que tem raízes em Belo Horizonte, a busca por um diálogo direto com o público. 

Eles já se ocuparam das perversas relações de trabalho, em Contrações (2013) e do fosso geracional entre pais e filhos, em Love, Love, Love (2017). Varia sempre o diretor escolhido para cada uma dessas criações – no caso de Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante é Gabriel Paiva, um dos integrantes do Grupo 3. O que não se altera e vai sendo refinado a cada nova criação é uma mirada que extravasa o realismo – por mais que o assunto tratado tenha lastro no real – e investe em doses de humor ácido e em certa atmosfera de absurdo. 

Duas mulheres se encontram em uma estrada brasileira, aqui denominada km 23. Uma delas, vivida por Débora Falabella, foi violentada por um grupo de homens. A segunda, interpretada por Yara de Novaes, é uma guarda rodoviária, desgastada pela brutalidade de ataques e crimes que presencia durante sua jornada de trabalho. 

Nas cenas iniciais, Falabella representa com crueza o estupro sofrido. Mostra com movimentos corporais os socos, chutes e pontapés que teria recebido. O foco, porém, gradativamente deixa a violência em si para deter-se sobre a relação estabelecida entre as duas mulheres. A escolha é sagaz. Reconhece a impotência diante da brutalidade: um discurso de denúncia poderia ser apenas uma forma inócua de tratar a barbárie com a qual já estamos tristemente acostumados; incorrer em um denuncismo que viria a enfraquecer a obra como criação artística. Livre dessas armadilhas, a dramaturgia de Silvia Gomez parte em busca de outras abordagens, abraçando uma corajosa dose de surrealismo. 

Após testemunhar o crime, a guarda rodoviária tenta acolher a moça que encontrou desacordada no asfalto. Sem entender direito o que aconteceu, a vítima delira e rechaça a ajuda. A situação remete ao vínculo tão comum nos contos infantis, entre as heroínas sofredoras e as fadas-madrinhas, e abre espaço para que o encontro entre as duas adquira centralidade na trama. 

Seguidas vezes, a vigia da estrada pede explicações enquanto a outra se recusa a relatar o ocorrido e a nomear seus algozes. Por vezes, a repetição deixa a sensação de que o enredo gira em falso e o texto se esgarça. São idas e vindas que parecem somar pouco ao que é tratado. Mas essa insistência acabará por se mostrar frutífera ao dar ensejo a uma contundente passagem. 

Por se negar a relatar o episódio, a personagem de Débora Falabella sai do território do drama individual e alcança uma dimensão também política. Sobre abusos e profanações do corpo feminino, estabeleceram-se as sociedades, os mitos e os países. O sacrifício de Ifigênia, a violação de Lucrécia, o rapto das sabinas – há um sem-número de exemplos desse que é um aspecto fundador de nossa história.

Mesmo quando a dramaturgia derrapa, o jogo azeitado entre as duas atrizes mantém o ritmo da encenação. Há entre elas um grau de intimidade e segurança que concorre a favor do conjunto. A presença da banda boliviana Las Majas no palco também vem somar à montagem. Ao pedir o acompanhamento de uma determinada trilha sonora para algumas ações, Yara de Novaes reforça o distanciamento e a oportuna ironia que permeiam a peça. Serão as instrumentistas também as coadjuvantes da mais comovente cena do espetáculo. Rompe-se a dinâmica vigente, abre-se um aparte para uma canção de amor. Não é apenas um vestígio de esperança da personagem alquebrada – é uma celebração da beleza diante do caos e da falta de sentido. 

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