Marcelo Correa
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Ana Beatriz Nogueira leva ao palco ‘Um Pai (Puzzle)’, sobre relação entre Lacan e a filha

Após anos de esforço, atriz sobe ao palco do CCBB no Rio com o monólogo dirigido por Guilherme Leme Garcia e Vera Holtz

Daniel Schenker , O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 03h00

RIO - Um Pai (Puzzle) não é “apenas” o novo trabalho de Ana Beatriz Nogueira no teatro. Desde que foi apresentada, há alguns anos, ao livro de Sibylle Lacan, filha do renomado psicanalista francês Jacques Lacan, a atriz mergulhou na dolorosa relação entre ambos. “Ela era uma mulher comum, muito humana, que sentia amor e raiva pelo pai”, afirma Ana Beatriz sobre Sibylle, que se percebia rejeitada por Lacan, impressão potencializada pelo fato de não ter conseguido acesso ao leito de morte dele. “Ela não pôde se despedir do pai. Não disseram que Lacan estava prestes a morrer. Só soube no dia da morte”, conta Ana Beatriz, que, sob a direção de Guilherme Leme Garcia e Vera Holtz, estreia, nesta sexta-feira, 20, no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, o monólogo que resulta da adaptação do livro para o palco. 

A atriz acredita que o livro tende a fazer com que os leitores tracem conexões entre a jornada de Sibylle e as próprias vidas. “Acho que nos leva a pensar em pessoas importantes, em especial naquelas que não pudemos nos despedir, como um amigo que morre enquanto você está viajando”, observa. De certo modo, Ana Beatriz passou por essa experiência com Sibylle, mesmo sem tê-la conhecido pessoalmente. “Eu quis encontrá-la em Paris, mas não foi possível. E soube da morte dela quase um ano depois que ocorreu. Vivenciei um luto solitário”, revela Ana Beatriz. Sibylle morreu em decorrência de uma overdose de remédios, aos 73 anos, em novembro de 2013.

A história de Sibylle reverberou com contundência em Ana Beatriz Nogueira. Por isso, a atriz teve força para gestar o projeto ao longo de seis anos. “Às vezes, um projeto demora tanto tempo para ser concretizado que o desejo muda. Pode acontecer de o artista precisar se apaixonar de novo. Felizmente, não foi o caso aqui”, sublinha Ana Beatriz, que enfrentou um exaustivo processo de negociação com a editora Gallimard. 

Nesse percurso, a atriz recebeu ajuda de Ariane Mnouchkine e Juliana Carneiro da Cunha – respectivamente, diretora e atriz do Théâtre du Soleil – em relação à Gallimard. O cineasta Evaldo Mocarzel também se mostrou essencial na viabilização da empreitada. “Ana Beatriz tentou comprar os direitos, mas a Gallimard pediu valores exorbitantes. Eu entrei em contato com advogadas (Andrea Francez e Wanda Alonso) que conseguiram resolver a situação”, relata Evaldo.

A espera provocou alterações relevantes. Victor Garcia Peralta, que recentemente dirigiu Ana Beatriz nas montagens de Tudo Que Eu Queria te Dizer e Uma Relação Pornográfica (por essa última interpretação, a atriz foi indicada para os prêmios Cesgranrio e Questão de Crítica), precisou se afastar do projeto. Ana Beatriz, então, convidou Guilherme, com quem acabou de contracenar na citada Uma Relação..., e Vera para assumirem a direção. 

Antigos parceiros profissionais, Vera e Guilherme trouxeram para o trabalho o vínculo com as artes plásticas. “Sugeri um diálogo com o movimento neoconcreto”, ressalta Guilherme. A iluminação de Maneco Quinderé desponta como uma aliada fundamental no estabelecimento do conceito estético do espetáculo. Nos últimos anos, Vera e Guilherme – que já dividiram a condução de O Estrangeiro, monólogo em que ele atuava – têm transitado pela direção: Vera assinou a encenação de Sonhos para Vestir e a supervisão de Vermelho Amargo; e Guilherme, mais frequente nesse terreno, de RockAntygona, Trágica.3 e Da Vida das Marionetes. Os dois, inclusive, voltarão à direção conjunta no fim do ano com um projeto escorado em Tristão e Isolda

Em Um Pai (Puzzle), eles se depararam com o desafio de materializar em cena uma obra literária. “Onde você está quando lida com a literatura?”, questiona Vera, valendo informar que Ana Beatriz encomendou a Angela Leite Lopes uma tradução do texto. “Onde estaria Sibylle? Evaldo propõe um cemitério, mas metafórico”, assinala Vera, referindo-se à adaptação do livro, a cargo de Evaldo. Essa transposição para a esfera teatral não foi realizada rapidamente. 

“Fiz uma primeira adaptação. Depois de um tempo, Ana ficou com vontade de fazer algo mais minimalista, radical. Parti para uma segunda adaptação, mais enxuta. Nesse instante, vivi uma espécie de epifania. Sibylle ‘apareceu’ para mim”, diz Evaldo, comprovando plena adesão ao trabalho. “Esse é um projeto da alma da Ana. Em determinado momento, achei que ela deveria cantar – não de maneira grandiosa, e sim como uma filha cantando a rejeição e a paixão pelo pai”, explica Evaldo, cabendo mencionar que a encenação tem direção musical da cantora e compositora Zélia Duncan. Com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura, Um Pai (Puzzle) provavelmente desembarcará em São Paulo, mas ainda não há data fechada. 

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