FLÁVIO ERMÍRIO
FLÁVIO ERMÍRIO

Amizade entre Salvador Dalí, Federico García Lorca e Luis Buñuel une ficção e realidade no palco

'Fábula e Roda de Três Amigos' resgata conflitos entre o trio, o período surrealista e o assassinato do poeta pela ditadura de Franco

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2019 | 03h00

Assim como o roteiro de Viaje a la Luna, de Federico García Lorca, não tem nada a ver com uma saga espacial, O Cão Andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, também não é um filme sobre animais.

Parceiros em uma amizade surreal, o trio, que conviveu às vésperas da Guerra Civil Espanhola, ganha retrato cênico na peça Fábula e Roda de Três Amigos, em cartaz no Sesc Pinheiros. 

Para artistas que se conectaram quase imediatamente, durante os estudos na Residência de Estudantes, em Madri, Lorca, Dalí e Buñuel experimentaram o florescer de um movimento artístico que os uniu para além de palavras, quadros e filmes. O dramaturgo Flávio Ermírio enxergou no badalado trio, com perfis e vocações únicas, a reunião de temas que gostaria de explorar em sua dramaturgia. “O título do filme que Buñuel fez com Dalí foi uma provocação grosseira, irônica, a Lorca. Sabe-se que quando eles romperam, o cineasta tornou pública a homossexualidade do poeta, além de ter criticado bastante seu livro Romancero Gitano.”

Ermírio conta que a paixão que Lorca nutria por Dalí é um dos elementos instáveis que agitam a peça dirigida por César Baptista. “É interessante pensar que Lorca já era reconhecido como homossexual, sem que precisasse dizer, e nunca escondeu sua paixão pelo pintor.”

Foi em Nova York que o poeta escreveu o roteiro de sua estranha viagem à Lua, talvez como uma resposta amargurada aos antigos companheiros. “Dalí chegou a dizer que o poeta tentou sodomizá-lo”, conta Ermírio. Durante uma temporada nos EUA, Lorca enfrentava a repercussão de seu best-seller Romancero Gitano, via de perto o crash da Bolsa, e também se divertia sexualmente. Nesse período, prosseguiu com sua pesquisa sobre androginia, elemento que está no roteiro de Viaje a la Luna, posteriomente filmado em 1998. 

Esse mesmo desejo carnal que guiava a vida do autor de A Casa de Bernarda Alba não deixou de rondar Buñuel. Ermírio diz que, apesar da amizade, o cineasta não escondia um comportamento homofóbico nas ruas de Madri. “Buñuel costumava brigar e agredir rapazes se percebia algum olhar dirigido a ele.” 

É dessa mesma ordem a definição do cineasta em relação a Romancero Gitano. Segundo ele, a obra mais popular de Lorca foi feita para agradar a “poetas bichas”. Mais tarde, em sua autobiografia, Buñuel admitiu que Lorca “tinha uma atração, um magnetismo ao qual ninguém podia resistir”. 

Segundo Flávio Ermírio, o trio de atores escolhidos para o espetáculo precisava, antes de tudo, reunir a energia dos artistas. “O objetivo não foi buscar uma imitação, mas despertar a personalidade e mergulhar no material criativo que os antigos amigos deixaram.” 

Para isso, o ator Oliver Tibeau assume o papel de Lorca, Thomaz Mussnich, o de Buñuel, e Iuri Saraiva, o do bigodudo Dalí. “No início, eu tinha apenas um argumento”, explica o autor. “Depois que completamos o elenco, pedi que cada um trouxesse uma pesquisa sobre a trajetória desses artistas. Houve um período de improviso até que eu concluísse a dramaturgia.”

Ermírio explica que, apesar do recorte histórico tão farto de referências, a montagem também se permite remexer esse terreno fértil. “Não é difícil olhar para essas relações entre artistas e personalidades sem ser didático ou explicativo demais. Posso dizer que existe uma narrativa que retrata algumas situações importantes para a história, como o dia em que todos se conheceram, a rotina dos amigos, o surgimento dos conflitos, e, por fim, o rompimento.”

Além da trama, a peça vai cruzando os obras do trio, em suas produções conjuntas, como é o caso do filme O Cão Andaluz, criado quando Dalí e Buñuel se mudaram para Paris, como também os voos solos e obras que consolidaram o movimento surrealista. “Trazemos alguns poemas de Lorca, as pinturas de Dalí e o Manifesto Surrealista.” Este documento de 1924, publicado por André Breton, pregava a renúncia à lógica, ao racionalismo absoluto e louvava a imaginação. Para Ermírio, tais diretrizes estão presentes na vida do trio e permeiam a encenação, com uma narrativa que desobedece a um caminho mais linear. “Penso que não seria interessante aprisioná-los em uma lógica de começo, meio e fim. É impossível que o surrealismo não contamine a cena.”

Mas não é apenas de uma amizade conturbada entre artistas excêntricos que trata a peça. A ditadura de Franco custou o sangue de mais de 1 milhão de pessoas, quando os militares assumiram o poder. Lorca estava entre as vítimas, morto aos 38 anos. Os documentos o descreveram como “socialista, maçom e participante de práticas homossexuais”. O corpo nunca foi encontrado. 

Para o dramaturgo, lamentar a ausência da versão do poeta permite à peça fabular a respeito de sua vida e seu destino. “Dalí e Buñuel viveram por muitos anos, acompanharam as transformações no mundo e morreram já velhos. É uma pena que não exista a memória expressa de Lorca. Na peça, preferimos abordar a morte sob uma ótica surreal.”

Rainha da cena, a fábula sempre foi preciosa para os surrealistas. No manifesto de Breton, a imaginação tinha seu lugar, mas a frase a seguir até poderia ser atribuída a Lorca: “Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares”.

FÁBULA E RODA DE TRÊS  AMIGOS. Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195; tel. 3095-9400. 5ª, 6ª, sáb., 20h30. R$ 25 e R$ 12,50. Até 20/7

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