SERGIO CASTRO/ESTADAO
SERGIO CASTRO/ESTADAO

'Amigas, Pero No Mucho' faz 10 anos e entra na lista de longas temporadas

Espetáculo reforça o sucesso de comédias como 'Trair e Coçar, É Só Começar' e 'O Mistério de Irma Vap'.

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2017 | 06h00

Quando a assessora de imprensa e produtora Célia Forte passou três dias ao lado de Paulo Autran, ela não imaginava que aquele estudo intensivo em dramaturgia com o ator e diretor iria catapultar Amigas, Pero no Mucho, sua primeira peça como autora.

Nessa sexta, 30, a montagem volta em cartaz, no Teatro Folha, comemorando 10 anos de estreia.

Isso não quer dizer que essa uma década lhe traga tranquilidade. Pelo contrário, Célia continua ansiosa como no início. Mesmo assim, a autora lembra de quando escreveu a história de Fram, Debora, Olívia e Sara, interpretadas por homens, e que já começava abençoada por Autran e pelo ator Marcelo Médici, que mudou os rumos da peça. “Nós realizamos algumas leituras e o Paulo me ajudou a reescrever algumas partes. Ele também tinha decidido dirigir. A ideia era fazer com atrizes, mas o Marcelo sugeriu estrear com homens.”

Na peça, as quatro amigas – mas nem tanto – vão se encontrar num sábado a tarde, o que vai se tornar uma grande lavagem de roupa suja. Cada qual tem um perfil singular, expresso nas rubricas e apresentado pela voz de Denise Fraga. Fram, vivida por Elias Andreato, é divorciada e ninfomaníaca. Jonathas Joba interpreta Debora, que se acha a dona da verdade e come como ninguém. Já Nilton Bicudo, no papel de Olívia, foi rica, e Sara, com Leandro Luna, a mais jovem delas, fuma descontroladamente. “São pessoas que conheço, parentes e amigas que juntei nessas quatro personagens”, conta Célia.

Para o diretor José Possi Neto, o espetáculo tem a difícil missão de fazer rir, por inúmeros motivos. “Elas trazem suas pequenas tragédias cotidianas, que não interessam a ninguém, nem mesmo ao teatro, por serem tão medianas. Nesse mundo de emoções baratas, as amigas tentam tornar suas vidas num drama. Por isso, não há nobreza nem vileza”, conta.

O fato de ter homens no elenco também interessa como linguagem. “Eles não estão fazendo gays ou travestis. São mulheres. E eles precisam chegar nessa qualidade.”

Com um time que já teve atores como Leopoldo Pacheco, Romis Ferreia e Norival Rizzo, o veterano Elias Andreato segue desde a estreia. Nilton Bicudo entrou na segunda temporada e conta que o humor da peça está em um lugar muito simples. “No calor do personagem, às vezes, perdemos a verdade e ficamos apenas projetando. É sempre importante voltar e estudar. A peça carrega consigo essa força feminina e a gente empresta a nossa.”

É também com uma personagem feminina, a desastrada empregada Olímpia, que Trair e Coçar É Só Começar ocupa o posto da peça há mais tempo em cartaz ininterruptamente no Brasil. Escrita por Marcos Caruso, ela é a terceira no mundo – atrás de A Ratoeira, em cartaz desde 1952 no St. Martin’s Theatre de Londres, e A Lição, que estreou em 1951 em Paris, mas só entrou em temporada contínua em 1957, no Théâtre de la Huchette. 

Para o autor, o espetáculo foi “matematicamente calculado”, o que pode dar pistas de parte do sucesso que diverte o público desde 1986. “Estudei grandes autores franceses e ingleses, do vaudeville passando por nacionais como Martins Pena e Arthur Azevedo. O texto é milimétrico: fazer rir a cada 30 segundos”, conta Caruso. Com essa fórmula, as confusões de Olímpia com seus patrões já levaram mais de 6 milhões de pessoas ao teatro.

No mesmo ano, Marco Nanini e Ney Latorraca estrearam O Mistério de Irma Vap, com direção de Marília Pêra e que ficou 11 anos nos palcos, entrando para o Guinness, o Livro dos Recordes, como o espetáculo teatral que se manteve mais tempo em cartaz, com o mesmo elenco, no planeta. “Comédia era uma solução nos tempos da ditadura. Era o que se podia fazer naquela época, para fugir da censura”, aponta Caruso. “Houve uma debandada de artistas para a televisão e a gente precisava da presença do público também nos teatros.” 

Outra jovem nos palcos brasileiros é Os Monólogos da Vagina, que estreou no Rio em 2000, com direção de Miguel Falabella. A montagem traz relatos verídicos de 200 mulheres colhidos pela norte-americana Eve Ensler.

Caruso acrescenta que, o fato de o brasileiro ser mais afeito a comédia que ao drama, fortalece o gênero. “Existe a identificação do público com as personagens. No caso de Olímpia, não se trata de discriminação. Ela não é burra, é ingênua.” Aos 65 anos, ele só deseja que o espetáculo continue com essa boa saúde. “É certo que eu morro antes da peça parar.” 

AMIGAS, PERO NO MUCHO. Teatro Folha. Shopping Pátio Higienópolis. Av. Higienópolis, 618. Tel.: 3823-2423. 6ª, 21h30, Sáb., dom., 20h. R$ 50 / R$ 70. Até 27/8

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