DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Aliados à tecnologia, Mirella Brandi e Muepetmo desafiam palco e plateia

Em 'Ffobia Setor', dupla explora as síndromes atuais para criar uma experiência dirigida pela luz e som

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2018 | 06h00

Apesar da grande oferta de espetáculos na cidade, não demora muito para perceber certa repetição de temas ou modos de se fazer uma peça. O que poderia justificar o apelo ao sucesso criativo das séries televisivas, nos últimos anos, é prova de que o vigor do público exige mais que o bem-estar de um artista no palco.

Mirella Brandi e Muepetmo apresentam Ffobia Setor no Centro Cultural Banco do Brasil, nesta quinta, 17, e sexta, 18, e desde 2006 têm experimentado provocar a plateia para além de contar uma história.

Com aptidão em áreas do audiovisual que no teatro são tratadas como acessório, Mirella cria composições de luz e movimento, enquanto Muepetmo investe na música e em recursos de tecnologia. “Em trabalhos tradicionais, a luz sempre está a serviço de iluminar algo, mas acredito que nela existe uma autonomia que pode inspirar um projeto inteiro”, diz ela. 

Em Ffobia Setor, que estreou neste ano em Berlim, a dupla concebeu uma atmosfera de fobias e síndromes que perseguem a contemporaneidade. A investigação de luz e som é o que permite fazer questões sobre como criar uma narrativa. “Não vejo a história apenas nas palavras”, diz Muepetmo. “Os nossos sentidos nos permitem criar diferentes versões sobre uma experiência.” Para Mirella, o motivo é mais “primitivo”. “Luz e som são o princípio do cinema. O que nos impede de contar uma história?”

Apesar da imersão em tecnologia, a dupla ressalta que o high-tech não deve influenciar o desempenho nos palcos, o que auxilia no mergulho também pode asfixiar e transformar a experiência em algo estéril demais. Nesse equilíbrio a dança surge como mais um elemento na composição. “O corpo é cheio de subjetividades e códigos que são inevitáveis”, começa Mirella. “É muito difícil fugir disso. Basta colocar um ator no palco, e toda atenção da plateia muda.” Nesse formato, o desafio foi encontrar performers e bailarinos que não contivessem os vícios da dança, mas que trouxessem no corpo a virtuose dessa linguagem. Para Mirella, a presença do performer Pedro Galiza torna-se, então, parte da paisagem pintada no espetáculo. “Não é sobre apresentar uma coreografia, mas emprestar da dança esse movimentos”, diz ela. 

Toda essa reinvenção tem como principal objetivo atingir o público, de um jeito diferente. Como Galiza, a plateia deve figurar como mais um elemento da montagem, mas talvez, a mais desafiadora, já que não há controle sobre ela. Nessa questão, trabalhos anteriores como a Trilogia das Cores, que desenhava um percurso livre à circulação da plateia, apontou caminhos. “Nesses 12 anos, formamos um público que está longe do conforto de apenas sentar para ver uma história. As pessoas acabam montando suas versões para os espetáculos, por meio das próprias memórias, sonhos e percepções”, explica Mirella. 

FFOBIA SETOR. Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651. 5ª, 6ª, 20h. R$ 20 / R$ 15. Até 18/5. 

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