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Alessandra Negrini protagoniza peça 'A Árvore', seu primeiro solo

'Na pandemia, nos percebemos recriando modos de comunicação. Nos salvamos do desespero por isso', diz a atriz, que mesclou linguagens do teatro e do cinema

Maria Eugênia de Menezes, Especial para o Estado

26 de fevereiro de 2021 | 05h00

Certa manhã, ao acordar, Gregor Samsa descobriu-se transformado em um inseto. Com essa célebre metáfora, Franz Kafka tratou do absurdo da vida e do vazio existencial. Mas perder o contorno humano e ver-se metamorfoseado em outra criatura pode não ser necessariamente angustiante. Ou apenas angustiante. Em A Árvore – obra protagonizada por Alessandra Negrini que estreia nesta sexta, 26 –, os sentimentos evocados são de outra natureza. De repente, uma mulher percebe estar perdendo seu contorno como pessoa para, gradativamente, tornar-se uma planta. E há, nessa transformação, mais do que o luto por uma perda, a expectativa por um mundo inteiramente novo a ser descoberto. 

Assim como em tantas criações recentes, a proposta de A Árvore foi atravessada pela pandemia. Chegou a ser idealizada antes, como uma peça tradicional. Acabou sendo escrita e realizada nas condições impostas pelo isolamento social. O que era um monólogo, passou a ser um trabalho de natureza híbrida, entre o teatro e o cinema. “Esse hibridismo é mais uma forma que inventamos, entre tantas, de falar sobre nós, nesse período tão estranho da humanidade”, diz Alessandra, que assina o projeto também como produtora. “Na pandemia, nos percebemos recriando modos de comunicação. Nos salvamos do desespero por isso.” 

Essa é a segunda vez que a atriz assume a tarefa de se autoproduzir. Um caminho, segundo ela, para conquistar mais liberdade criativa e também uma forma de descobrir novos parceiros, no caso jovens escritoras brasileiras. Em Uísque & Vergonha, sua primeira incursão como produtora, entrou em contato com o romance de Juliana Frank, adaptado por Michelle Ferreira. Aqui, a dramaturgia é de Silvia Gomez, uma das mais interessantes vozes do teatro contemporâneo, com recentes indicações para os prêmios Shell e APCA por Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante

Habituada a narrativas de tonalidades fantásticas, a autora propôs em A Árvore uma incursão ficcional pelas proposições do cientista italiano Stefano Mancuso. Em A Revolução das Plantas, Mancuso lança um novo olhar para o mundo vegetal que deveria, segundo ele, nos inspirar a mudanças em vários aspectos da vida, como a arquitetura, a política ou até mesmo a forma de se organizar em sociedade. Capazes de resistir a catástrofes e se adaptar a grandes transformações, as plantas seriam também detentoras de habilidades imprevistas, como se comunicar com seus pares ou memorizar uma informação. 

Para contar a história dessa mulher que se despede da antiga identidade para assumir uma nova forma, o tom assumido é o do delírio – outro expediente recorrente na escrita da dramaturga. “Existem situações-limite, geralmente situações de grande trauma, em que não cabemos mais na realidade. É aí que se instaura o delírio para as minhas personagens. Não como uma forma de loucura, mas como um momento de extrema lucidez, em que é possível se olhar de frente para as coisas mais perigosas”, comenta Silvia. 

Pandemia

Ainda que não tematize a crise atual, a obra não escamoteia as influências, tanto na forma quanto no conteúdo, trazidas pela pandemia. “Não há como realizar nada agora, nenhum trabalho artístico, em que você não esteja tomado por essas questões. São muitas as concessões a serem feitas. E muitas as possibilidades de experimentar”, crê a diretora Ester Laccava. Com 40 anos dedicados ao teatro, Ester estreia esse seu primeiro experimento audiovisual – que ela se recusa a chamar de teatro virtual – na companhia do cineasta João Wainer. “Uma obra sem a presença do público não é teatro”, ela acredita. “Uma peça precisa de três pilares para existir: a dramaturgia, o ator e o espectador. Mas a maior herança que trago do teatro para esse projeto é o risco. A possibilidade de adentrar em algo novo, de lidar com uma nova linguagem, que não é nem a do palco nem a do cinema.” 

Ambientada em locações no centro de São Paulo e na Serra de Mantiqueira, A Árvore teve a maior parte de suas cenas gravadas no interior do Teatro Faap. O aspecto não é propriamente o de um espetáculo filmado, mas o que chega à tela conserva, por exemplo, uma iluminação de inspiração teatral, assim como uma ênfase no trabalho da intérprete e no que é dito por ela. “A presença da palavra o tempo todo, do texto, não é própria do cinema, onde o mais importante é a imagem”, considera Alessandra Negrini. “Essa é uma peça que nasceu filme. Contingências e idiossincrasias da pandemia. Tivemos que nos virar e, no fim, há algo de interessante nessa adaptação.” 

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