ELISA MENDES
ELISA MENDES

'Alair' reflete sobre preconceito e liberdade

Edwin Luisi festeja 45 anos de carreira com texto inspirado na vida de fotógrafo precursor da imagem homoerótica

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

O tempo andava escasso para o ator Edwin Luisi, no início do ano – mesmo assim, ele recebeu o convite para estrelar três peças teatrais. Apesar da variedade de temas, sua atenção se concentrava em um texto, escrito por Gustavo Pinheiro, denominado Alair.

Trata-se de uma bela homenagem a uma figura pouco lembrada nos dias atuais, Alair Gomes (1921-1992), precursor da fotografia homoerótica no Brasil. “Fiquei emocionado e, apesar de ter mais de 30 páginas com falas para decorar (um desafio para a minha idade), decidi aceitar esse convite”, conta Luisi que, aos 70 anos, comemora 45 de carreira.

O desafio, na verdade, é muito maior. Apesar da forma apaixonada com que fotografou principalmente garotos de praia da zona sul carioca, imagens que conquistaram uma consagração internacional, Alair Gomes foi também engenheiro, filósofo, escritor, além de estudioso e crítico de arte. “Além de mais de 170 mil negativos, ele deixou uma coleção de diários, escritos de 1954 até pouco antes de sua morte, em 1992, nos quais revela considerações artísticas e pessoais”, conta Pinheiro, que pesquisou o material, armazenado na Biblioteca Nacional, no Rio.

Pelas páginas escritas em inglês (uma provável medida para evitar que o conteúdo fosse facilmente identificado), o dramaturgo tentou decifrar um homem enigmático. “Apesar dessa documentação, não é possível delinear com perfeição quem foi o Alair”, observa Pinheiro. “Por isso, a peça apresenta nossa visão do artista.”

Na peça dividida em três momentos da vida do fotógrafo, Luisi contracena com Andre Rosa e Claudio Andrade, que vivem diversas pessoas que passaram pela vida de Alair, reproduzindo, em cena, as imagens congeladas das fotos. O diretor Cesar Augusto buscou a delicadeza para tocar em assuntos delicados, como a sedução que Alair exercia sobre seus fotografados – há, inclusive, um momento com nu frontal.

“O bom gosto predomina e o mais importante da montagem é ressaltar temas atuais, como preconceito e liberdade”, comenta Luisi. O tema, aliás, não atraiu patrocinadores. “Decidimos fazer na raça mesmo”, conta Pinheiro.

ALAIR. Teatro Nair Bello. Shopping. Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569. Tel. 3472-2414. 6ª e sáb.; 21h; dom., 19h. R$ 80. Até 5/11

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