Lenise Pinheiro/Divulgação
Lenise Pinheiro/Divulgação

Ailton Graça vive um cigano imortal na América Latina

‘Solidão’ captura a atmosfera lírica do realismo mágico de Gabriel García Márquez com a história de um vilarejo preso no espaço-tempo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 09h42

Um mundo no qual o tempo não é linear, onde eventos sobrenaturais e experiências com o fantástico fazem parte do dia a dia. Como cenário, um pequeno vilarejo congelado no espaço-tempo.

De fato, a literatura dos anos 1960 e 1970 que gerou clássicos como Cem Anos de Solidão revelou que, na América Latina, a magia poderia conviver com a dureza da ditadura e dos problemas sociais. A salvação esteve na resistência pela palavra, encabeçada por escritores como o colombiano Gabriel García Márquez, e os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges.

De carona nesse universo, o espetáculo Solidão estreia no Galpão do Folias nesta sexta, 4. Na montagem, Ailton Graça vive um cigano imortal que abre caminho para a vinda de uma onda de forasteiros ao vilarejo esquecido.

O resultado vai provocar mudanças irreversíveis na vida dos moradores. No entanto, o local também tem suas próprias regras, fazendo com que todos os acontecimentos – até mesmo a morte – tenham uma lógica muito particular. “A mudança na política brasileira nos provocou a voltar para essa produção na tentativa de compreender o que está acontecendo”, explica o diretor Marco Antonio Rodrigues. “Diante de tantas conquistas, nos últimos anos, como isso se perdeu de uma hora para outra?”, questiona.

Ele acrescenta que o Brasil, em geral, também acompanha o ritmo da América Latina. Isso se tornou uma razão pertinente para observar a literatura produzida em comum. “Naquela época, havia uma onda de propostas humanistas que não perdurou hoje, e que acabou perdendo força. O problema talvez não esteja nelas, mas na transformação do tempo.”

Ele conta que esse gênero literário ajudou a formar a identidade da América Latina. Por isso, muita coisa em comum se revelou, como os sistemas políticos, econômicos e as questões sociais, por exemplo. “Não somos e não temos o peso da história da Europa Ocidental. A missão deles é assegurar e manter esse legado vivo por muitos séculos. No nosso caso, ponto de partida como continente colonizado nos deu a chance de criar, de inventar a própria história. Isso não é pecado, só é diferente.”

Essa discussão perpassa a montagem em 15 cenas, nas quais Graça opera como um narrador que escreve e sofre os acontecimentos. Chamado de Chema, o cigano vai conduzir as histórias vividas no tempo exato em que são narradas. Em uma das situações, um grupo de pessoas não consegue dormir.

A solução é dançar cumbia até que fiquem cansados demais para adormecer. No entanto, as energias não se dissipam, e os personagens vão, pouco a pouco, perdendo a memória, esquecendo do passado e de suas identidades.

Rodrigues acrescenta que até mesmo os gêneros sofrem com essa estrutura dinâmica. “Situações cômicas vão ganhando ares de tragédia e o contrário também acontece.”

Em suma, não há regras nem leis naturais que mantenham esse mundo em ordem. Os personagens desejam driblar a morte e vencer o tempo e, para isso, desenvolvem modos de sobreviver.

O diretor ressalta que as cenas são independentes entre si, já que não há uma narrativa linear. “São situações que começam e terminam, como números de um circo: depois do malabarista entra o domador de leões. Não existe uma continuidade, mas ambos fazem parte do mesmo universo circense.” O que embala esse mundo também se revela na música, em uma coleção que se atenta para a variedade na América Latina.

A peça, portanto, expõe o choque entre duas culturas: a nativa, não necessariamente inocente e ingênua, e a estrangeira, curiosa e extrativista, bem como os desdobramentos desse encontro nas relações de amor, poder e fraternidade. “Solidão é a fratura artística e cênica, resultante de um estado permanentemente febril que coloca o sujeito sempre entre duas pulsões antagônicas absolutamente complementares e paradoxalmente excludentes”, afirma o diretor, que cita como exemplo dessa tese o desejo que toda a sociedade brasileira tem de acabar com a corrupção e, ao mesmo tempo, a prática desse esporte por todos, no dia a dia e nas coisas mais comezinhas.

Tais questões são exemplificadas nos problemas diários dos moradores, como o desejo de ter voz, de se fazer ouvir. Rodrigues conta que o nosso continente ainda é emblema da esperança, talvez por isso a jornada pareça nunca ter fim. “É como se a América Latina não passasse de um gigantesco Sísifo, condenado a carregar uma pedra colossal até o topo de uma montanha”, conta, ao recorrer ao mito grego.

SOLIDÃO. Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213. Tel.: 3361-2223. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 40 / R$ 20. Até 18/12

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