FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO
FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Espaço Cenográfico pode fechar as portas por falta de apoio

Arquiteto teatral J.C Serroni cria campanha para manter ateliê ativo

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2015 | 05h00

Pela manhã, a Rua Teodoro Baima, na República, está desabitada. À direita do Teatro de Arena e à esquerda do Pequeno Ato, o Espaço Cenográfico acompanha o silêncio da vizinhança. Lá dentro, o clima é de mudança. Caixas retangulares envolvidas em plásticos ostentam etiquetas. Antígona, Os Saltimbancos, A Peça sobre o Bebê. É só passar os olhos por elas que a memória de José Carlos Serroni é ativada. “Nós estreamos a peça de Sófocles em 2013, no Sesc Consolação. Naquela época, eu já tinha saído do CPT”, lembra o cenógrafo e figurinista que trabalhou no Centro de Pesquisa Teatral do diretor Antunes Filho de 1987 a 1997. Naquele mesmo ano, Serroni inaugurou o ateliê que completa 18 anos de existência e está prestes a fechar as portas.

Para liquidar os aluguéis atrasados mais despesas fixas como água, luz e funcionários, o arquiteto teatral criou uma campanha para arrecadar R$ 60 mil por meio de financiamento coletivo. Em junho, enquanto participava da Quadrienal de Praga, principal mostra da cenografia mundial, Serroni já havia decidido fechar o espaço. “As contas se acumularam e eu não sabia o que fazer. Eu já cheguei ao Brasil com a intenção de encerrar as atividades do Espaço”, explica.

Entretanto, a opção emergencial animou o artista. Até o fechamento desta edição, a campanha hospedada no site Kickante registrou pouco mais de R$ 10 mil doados por 44 pessoas. Para este modelo de financiamento, os criadores da campanha podem conceder recompensas de acordo com o valor doado. Na campanha de Serroni, uma dessas formas de retribuição é a retomada do jornal EC News, publicação que foi interrompida por falta de apoio. “Durante um bom tempo, nós recebíamos patrocínio de empresas e instituições. De 2007 para cá, nada mais ocorreu.

Recentemente, tivemos um projeto aprovado pela Lei Rouanet, mas não conseguimos captar os recursos”, conta. 

Aluno do cenógrafo Flávio Império na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Serroni seguiu os passos da educação e integrou em 2010 a equipe fundadora da SP Escola de Teatro, na qual orienta os cursos voltados para cenografia, figurino e técnicas de palco. Atualmente, o Espaço Cenográfico serve como ateliê para os alunos da instituição. “Durante esse período, estive um pouco distante do Espaço Cenográfico. Isso prejudicou, de certa forma, o bom andamento do espaço”, reflete.

No local, Serroni ainda mantém um acervo com maquetes, uma exposição permanente sobre a história do teatro, além de figurinos, arquivos de áudio e vídeo. A biblioteca reunida é apontada com orgulho por Serroni. “Quando eu me formei em 1977, só havia uns sete livros sobre cenografia na faculdade. Acredito que hoje não tenha mudado tanto.”

E, ao caminhar pelo ateliê, importantes trabalhos da carreira de Serroni podem ser vistos nos pequeninos palcos espalhados. Em um deles, A Flauta Mágica de Mozart (foto), o cenário foi reconstituído pela revista Casa Vogue em um ensaio fotográfico. A cenografia de Toda Nudez Será Castigada, Dias Felizes e Senhora Macbeth também integraram a edição.

Outro cenário relembrado com carinho é o de Rei Lear, que estreou em 2000 com Raul Cortez (1932-2006) no papel do rei louco. Serroni transformou quase duas toneladas de ferro na construção de duas torres e de um paredão que tombava sobre o palco em consonância com a decadência do monarca. Em um momento, forma-se um viaduto sob o qual dormiam os mendigos. “Aquela peça era linda e, mais tarde, perder Raul foi uma grande tristeza.” 

Na mesa de seu escritório, ele mostra projetos em andamento. Um deles será o cenário do novo musical de Miguel Falabella. O outro representa a contínua e frutífera parceria com Antunes. Ambas montagens estreiam ainda neste ano.

E a preocupação exposta no início da conversa se dissipa quando Serroni sugere um futuro mais otimista. Ao lado de sua mesa, ele olha para a parede. Nela estão pregados diversos rabiscos de carros e mapas de metrô de autoria do filho mais novo. “Ainda que os tempos passados tenham sido melhores, essa situação nos instiga a pensar em outros caminhos para o teatro e para os artistas. Eu tenho pouco mais de um mês para arrecadar o valor e estou ansioso para conseguir isso”, sorri.


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