JAMIL KUBRUK
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'Abajur Lilás', de Plinio Marcos, completa 50 anos, ganha exposição e companhia de repertório

Marco Antônio Braz também assina a encenação de Dois Perdidos Numa Noite Suja, em ocupação no Teatro de Arena

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 03h00

Um retrato tão cruel quanto a própria realidade não fazia partes do ideal de um país em plena ditadura. Num mundo em que artistas nem sobrevivem para viver o sucesso, o dramaturgo Plínio Marcos teve a sorte de assistir Abajur Lilás estrear em 1980, produzida por Antonio Fagundes e com Walderez de Barros no elenco, texto escrito lá em 1969. 

A repercussão deste período, que também marca os 50 anos da peça, ganha uma exposição no Teatro de Arena, a partir desta quarta, 1º, como parte do projeto Noites Sujas. Em Abajur Lilás, a delicadeza consiste apenas no título da peça. A trama ambientada em um prostíbulo chocou a censura que impediu sua estreia. Na história, três prostitutas enfrentam uma vida degradante e a luta por sobreviver, ao lado do dono Giro, um homossexual. Quando um abajur lilás aparece quebrado, o local se torna palco para a fúria violenta de pessoas à margem. “Até a peça estrear em 1980, meu pai enfrentou as constantes negativas da censura”, diz Kiko Barros, responsável pela curadoria. “Enquanto esperava, Plínio conseguir relatar o caso em sua coluna no jornal Última Hora.”

Na ocupação, o Arena ganha a estreia de Abajur e Dois Perdidos Numa Noite Suja, pela novíssima Companhia Plin de Repertório, dirigida por Marco Antônio Braz. “Sempre houve desejo de criar uma companhia dedicada à obra do Plínio”, explica. “A ideia é montar todas as suas peças, com diferentes elencos e unir um debate sobre dramaturgia, com seus temas abordados.” 

Para ele, a condição de companhia reforça a ideia de que é a obra do dramaturgo é que ganha ao receber diferentes abordagens. “Um grupo está mais organizado em torno de uma convivência, quase uma família, no desenvolvimento do trabalho. O trabalho de uma companhia abre, por exemplo, a possibilidade de convidar diferentes artistas e também não impede que os artistas daqui possam desenvolver outros trabalhos.”

Na noite da abertura, o autor e diretor Mário Bortolotto também apresenta sua visão de Plínio, com a leitura de Barrela, acompanhado do artista visual João Pinheiro, autor da HQ inspirada na peça escrita pelo dramaturgo santista em 1958. 

Em seguida, o Plinio amante de samba será lembrado em Arena do Samba canta Plínio Marcos, com o samba de raiz de Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde, Toniquinho Batuqueiro. “A exposiçao dá conta da diversidade de temas que Plinio abordava”, afirma Barros. “Não só o mundo da marginalidade mas a musical, as artes.”

Ao longo de três, a ocupação no Arena também recebe a apresentação de montagens recentes inspiradas em sua obra, como o Bote da Loba, texto inédito de Plínio encenado em 2016 pelo Teatro Garagem que faz temporada a partir de 22 maio.

Na peça escrita em 1997, a atriz Anette Naiman interpreta uma taróloga – veja só, tal qual o próprio Plinio – que recebe mulheres que buscam nos astros o caminho da felicidade e porque não junto ao prazer feminino. Na época, a atriz afirmou ao Estado que o texto não deixa de ser autobiográfico mas também surpreende ao revelar uma persona feminista nas linhas escritas pelo dramaturgo. É também do Teatro Garagem a montagem de Navalha na Carne que entra em cartaz em 5 de junho. 

Além da programação, o curador da exposição e filho de Plinio organiza um city tour para quem quer conhecer as andanças do pai pelo centro. “Essa cidade ainda guarda muito do que ele foi.”

NOITES SUJAS. Teatro de Arena. R. Dr. Teodoro Baima, 98. Tel.: 3259-6409. 4ª, 5ª, 6ª, sáb., 20h, dom., 19h. R$ 20 / R$ 10. Até 30/7.

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