Caio Galucci
Caio Galucci

'A Vela' aborda conflito familiar entre a filha drag queen e seu pai

Espetáculo tem influência do romance 'Madame Bovary', de Gustave Flaubert

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

18 de agosto de 2021 | 20h00

Quando decide tirar a própria vida em uma das passagens mais icônicas do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Emma Bovary se encontrava frustrada por não conseguir encontrar na vida real os amores e paixões que aprendera a admirar na literatura. Um casamento e casos extraconjugais frustrantes levaram a jovem camponesa ao suicídio na obra publicada em 1856.

Mais de um século separa a clássica personagem do romance de Flaubert e sua homônima, a drag queen Emma, personagem do drama A Vela, escrito pelo dramaturgo Raphael Gama e que estreia quinta-feira, 19, com única transmissão dentro do projeto Palco Instituto Unimed BH em Casa, às 20h30, no canal oficial do Teatro Claro Rio, Sesc Minas e da produtora Pólo BH no YouTube.

Na obra, Emma é, na verdade, Cadu, um jovem rapaz que, tal qual na obra do século 19, se vê frustrado com as expectativas de um relacionamento, mas, na obra contemporânea, o problema é a relação entre pai e filho. Cadu é expulso de casa pelo pai, Gracindo, que, embora cumpra todos os requisitos de uma figura dita culta e letrada, não consegue aceitar a orientação sexual do filho.

“Quis trazer a discussão para o ambiente da cultura, lembrar a todos que preconceito nem sempre é falta de informação e que precisamos, independente de nossa formação, ou classe social, fazer um exercício catártico e repensar, se preciso, posturas, priorizando sempre o amor e o respeito como forças motrizes de, quem sabe, um mundo mais justo”, explica o autor.

Estrelado por Herson Capri e Leandro Luna sob a direção de Elias Andreato, A Vela é um espetáculo nascido, principalmente, da relação de amizade entre diretor e autor e daquilo que Andreato considera uma pequena malandragem de Luna, que assina a produção do espetáculo. 

“Raphael me mandou o texto e achei interessante. Sugeri algumas mudanças e decidimos dar para o Luna, porque eu achava que tinha tudo a ver com a personagem. Ele gostou e começamos a pensar no projeto: entramos na Lei Aldir Blanc e o Luna me sacaneou, porque eu ganhei um prêmio do edital e ele, como produtor, incluiu a peça, sendo que eu poderia ter pegado o dinheiro e ficado em casa sem fazer nada”, ri o diretor que, originalmente, coestrelaria a obra.

À medida que a produção foi se desenvolvendo, Andreato e Luna chegaram à conclusão de que seria importante ter uma terceira via no elenco e, numa conversa com a produtora Priscilla Squeff, surgiu o nome de Herson Capri. 

“Ela leu o texto, olhou pra mim e imediatamente veio o nome do Herson e eu aceitei de imediato, peguei o telefone e fui atrás dele, na cara de pau, oferecendo o texto. Ele aceitou ler e passou um dia, dois, uma semana, e aí, quando eu já estava abrindo mão dele, ele me liga a uma da manhã aceitando o convite”, conta Luna. 

Capri corrobora: “Era um convite irrecusável. E eu recuso muita coisa, ou porque o texto não combina comigo, ou porque eu não vejo verdade na obra, mas esse texto já era muito forte. Super atual e, ao mesmo tempo, atemporal, universal. O espetáculo tem um conteúdo muito sólido, muito forte e sem levantar bandeira. É uma história simples e nessa simplicidade nós fazemos uma narrativa atemporal, e o Elias faz isso de uma maneira muito delicada e contundente. É esse o tipo de teatro que eu quero fazer”.

Na obra, após ser rejeitado pelo pai e passar anos fora de casa, Cadu retorna ao lar montado como a drag queen Emma Bovary para ajudar o pai a encaixotar suas coisas para que possa se mudar para uma casa de repouso após a morte da esposa. “Quis falar sobre a diferença entre o conhecimento adquirido e o conhecimento prático, e que diplomas não nos protegem de sermos ignorantes. Junto a isso há a paixão que tenho de falar sobre a pessoa na sociedade após os 60 anos, e o quanto ela precisou aprender num mundo que conflita tanto a todo tempo”, diz Gama.

Para Andreato, A Vela conversa diretamente com o Brasil contemporâneo ao apresentar a figura da intolerância em sua figura mais pura. “É isso o Brasil de hoje, são essas as pessoas que estão ali, que tratam a cultura com esse negacionismo tanto quanto tratam a saúde. E é de caso pensado. Fazem isso porque a arte e a cultura fazem do indivíduo um progressista, um humanista, lhes dá alteridade, faz olhar para o outro, e eles querem destruir isso. E vai ser difícil recuperar tudo isso que eles destruíram”, acredita.

Capri reforça, lembrando dos dois incêndios que varreram parte do acervo da Cinemateca. “Perdemos tudo do Glauber! Enquanto artistas, temos de nos posicionar e dizer que o que está aí é o que há de pior e não serve! Quem votou por necessidade ou por acreditar, tem que fazer a mea culpa e voltar atrás, não é possível! Se não for do ponto de vista político, do humano. É a maior crueldade que já existiu nesse país, não dá nem mais para dizer o nome desse homem, que é burro, é ignorante. A cultura nunca fez parte da vida dessas pessoas, eles nunca viram um filme, uma peça, nunca ouviram uma música, mas eu tenho esperança que eles vão passar. E nós continuamos”.

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