JOÃO CALDAS
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'A Tempestade' de Gabriel Villela aterrisa em ilha de sonhos

Derradeira obra de Shakespeare, espetáculo ganha as cores de Minas Gerais e recebe grande atuação de Celso Frateschi

Jefferson Del Rios, ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

04 de setembro de 2015 | 05h00

Tempestade é só uma ilha na fantasia de Shakespeare. Nela desembarca Próspero, nobre com poderes mágicos, exilado por adversários políticos. O desterrado moverá o mundo no espetáculo ajudado por outros dois magos: o diretor Gabriel Villela e o ator Celso Frateschi, e mais uma corte de atores da melhor qualidade. Derrubado do poder como duque de Milão, Próspero engendra uma viagem náutica aos usurpadores, e a consequente tempestade que os jogará a seus pés. 

Mares frios são assustadores. No estudo Visões do Paraíso, Sérgio Buarque de Holanda menciona a tradição celta, povo da antiguidade, referente a ilhas fora do tempo e do espaço. Utopia que se repete ao longo da literatura: Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (1719), e A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (1883). Na vida real, Napoleão Bonaparte foi remetido para a longínqua Santa Helena no meio do Atlântico (1815). As Ilhas Britânicas de Shakespeare já se definem pelo nome. Um país, uma nação, um Estado feito de ilhas. 

A obra de Shakespeare é uma comédia com elementos sombrios manipulados nas medidas certas. Se for para estudar a fundo seus possíveis significados, aí serão bibliotecas inteiras. Vamos, então, só buscar algumas informações. No gigantesco estudo Shakespeare – A Invenção do Humano (896 páginas), Harold Bloom define A Tempestade como uma peça desprovida de enredo nítido, mas expondo inúmeras questões culturais (até virgindade no casamento), políticas, filosóficas e mitológicas. A ação, em parte, é conduzida por dois seres híbridos, Caliban, resumidamente, um diabo caricato, e Ariel, espécie de anjo imperfeito, mas leve.

Forças opostas a serviço de Próspero e intrigas que resultam numa mascarada de inveja, cobiça, vingança e amor. Se há uma mensagem humanista, e Shakespeare sempre as tem, está no radioso final quando tudo se resolve para o bem, os maus se penitenciam, ninguém morre, e Próspero abre mão dos poderes mágicos e brinda o mundo (a plateia) com lindas palavras de Shakespeare: “Esses atores eram apenas espíritos, seres incorpóreos, e se dissiparam no ar”.

Gabriel Vilella tem apego poético à sua Minas Gerais natal. Sempre que pode, traz de Carmo do Rio Claro cores, objetos e tecidos para suas realizações. Até o barro. O espetáculo ganha os contornos desta Minas, ilha sem mar. A Minas do Vale do Jequitinhonha, pobre na economia, mas artisticamente rica ao lado da Vale do Aço do capitalismo brasileiro. Esta contribuição está presente no artesanato, figurinos e, em parte, na música. A visão do diretor despoja o próprio Shakespeare da efígie lendária e o mostra como homem da província que, antes de ser gênio, foi o profissional do palco que perdeu um filho e as filhas não deixaram descendentes. Seu túmulo de granito claro é o que restou. A sepultura e o teatro imortal.

A Tempestade tem força colorida que inclui os vasos de barro, a imagem de Iemanjá e as músicas que conhecemos tanto, de Heitor Villa-Lobos a Milton Nascimento e Dorival Caymmi. O elenco numeroso, com papéis entrecortados, o que dificulta desempenhos plenos, é apaixonado e bem ganharia com maior unidade de voz (volume, dicção e pronúncias).

Há brincadeiras que diminuem potencialidades da ação, como a fragilidade feminina de Ariel por Chico Carvalho. Ele pode ir mais além no papel. Sim, há um clima circense na representação e dele faz parte a autoironia do homem vestido ou com trejeitos de mulher (como nos blocos dos sujos no carnaval), mas que aqui o efeito não favorece o conjunto. 

Hélio Cicero é suficientemente bom ator para dispensar a máscara feia e inexpressiva e ser, de rosto limpo, o maldoso Caliban. São pequenas dissonâncias no engenho teatral comandado pelo talento de Celso Frateschi, que chama a si e encarna a profundidade de Shakespeare. Um dos grandes atores da atualidade, cabe a ele neste belo espetáculo impor um majestoso Próspero e dar voz ao poeta: “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos e nossas pequenas vidas se encerram em um sono”.


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