'A Semente da Romã' trata de temas como o preconceito em relação à velhice no fazer teatral

'A Semente da Romã' trata de temas como o preconceito em relação à velhice no fazer teatral

Com Walderez de Barros e Sérgio Mamberti no elenco, espetáculo estreia virtualmente neste sábado, 21

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 16h34

Coadjuvantes em uma peça de teatro, seis atores ganham protagonismo ao debater sobre temas pessoais e existenciais na coxia. O novo projeto da Companhia da Memória traçaria esse diálogo entre o palco – com a encenação de As Três Irmãs, clássico de Chekhov – e os bastidores dessa peça – com A Semente da Romã, texto inédito de Luís Alberto de Abreu. Assim, o que acontecia no palco, de alguma forma, repercutia na coxia. Metalinguagem pura. Dois públicos diferentes acompanhariam os dois espetáculos, realizados simultaneamente no teatro do Sesc Pompeia. 

No entanto, o projeto teatral, cuja dinâmica só teria sentido presencialmente, precisou ser adiado por causa da pandemia. E foi readaptado para versão digital. A companhia focou agora em A Semente da Romã, que estreia virtualmente neste sábado, 21, no canal do YouTube da Companhia da Memória, e será apresentada todos os dias da semana, às 21h, e aos domingos, às 17h e às 21h, até 8 de dezembro. Os ingressos para a temporada online são retirados gratuitamente na plataforma Sympla. 

Mesmo sem As Três Irmãs, a conexão entre os dois textos será mantida de alguma maneira? O dramaturgo Luís Alberto de Abreu explica que o diálogo entre as duas peças é indireto, porque cada uma delas explora diferentes questões e situações dramáticas. “As Três Irmãs expõe a decadência dos valores tradicionais de uma sociedade em transição e a inadequação de seus indivíduos a esse período (no início do século 20). A Semente da Romã explora os bastidores da cena da montagem do texto russo e as questões em que se colocam os atores e sua profissão de fé na linguagem que escolheram como atividade profissional”, diz. “É claro que algo se perde nessa transposição de linguagem, principalmente na ausência do jogo de simultaneidade com a outra peça. No entanto, há em comum a crise social e de valores que é muito próxima entre as duas épocas históricas – com todas as inadequações dos indivíduos a esse terreno de mudanças – e o sentimento de esperança que anima os personagens das suas peças.”

Em A Semente da Romã, Walderez de Barros e Sérgio Mamberti interpretam Ariela e Guilherme, dois atores que têm uma relação visceral com o teatro e refletem sobre sua atual situação como veteranos, com papéis menores, apesar de terem construído consolidadas carreiras. Quando estão em cena, em As Três Irmãs, Ariela e Guilherme vivem coadjuvantes, os criados Anfissa e Ferapont. “A Semente da Romã estabelece então um paralelo entre os dois artistas, sobre esse momento de transição, em que ambos estão se retirando para outro espaço de criação de menor participação, embora o ator, mesmo em pequenos papéis, garante sempre sua presença na cena”, observa Mamberti. “O texto é sobre a condição do ator em geral, mas principalmente nos dias de hoje.”

Segundo Walderez, não é o fato de representar uma criada que incomoda sua personagem Ariela, mas a constatação de que ela não será mais convidada para trabalhar, mesmo estando em plenas condições físicas. O que expõe “o preconceito em relação à velhice no fazer teatral”. “A peça trata exatamente dos problemas que atores e atrizes enfrentam ao escolher esse ofício. No momento atual, estamos vivendo uma situação de exceção, plateias vazias, palco isolado, uma tragédia anunciada. Mas A Semente da Romã não trata dessa exceção apenas, fala dos problemas anteriores, agravados agora, mas que já existiam.” Há questões do teatro também debatidas sob o ponto de vista de atores mais novos. 

Com direção de Marina Nogaeva Tenório e Ruy Cortez, traz ainda no elenco Ondina Clais, Eduardo Estrela, Lavinia Pannunzio e João Vasconcellos. 

Alberto de Abreu diz que a companhia quer retomar o projeto como foi pensado originalmente, com os dois espetáculos em cena, quando for possível. “As apresentações virtuais são apenas um estágio do processo que se completará no palco, junto ao público. É com essa esperança que a equipe toda trabalha.” 


Sérgio Mamberti: 'O artista é sempre colocado em situação de desafio'

Fale sobre Guilherme, esse personagem que é 'submetido à hierarquia do teatro', como você descreveu, fazendo um paralelo com seu personagem em 'As Três Irmãs', que é um criado.

A Semente da Romã é um trabalho muito especial desenvolvido pelo Luís Alberto de Abreu para ser um contraponto à As Três Irmãs no espetáculo que deveríamos ter estreado em abril. O texto é sobre a condição do ator em geral, mas principalmente nos dias de hoje. A Semente como foi concebida traz atores numa discussão que se estabelece no backstage sobre o momento de resistência contra a ditadura, contra a censura e a luta eterna do artista através da sua responsabilidade social de ter este papel de discutir a realidade fazendo com que o público participe também dessa discussão e possa trazer a sua contribuição. Essas discussões se aprofundam neste momento de pandemia e colocam a gente numa situação de perplexidade em primeiro lugar diante do momento em que estamos vivendo e certamente de encontrar perspectivas de novos rumos para a nossa trajetória e para o nosso ofício teatral. E criam um contraponto às dificuldades e aos obstáculos que temos neste momento para superar problemas como este.

De que maneira 'A Semente da Romã' revela os tempos atuais, a condição do ator nos dias de hoje, etc? Quais reflexões são trazidas à tona? Ainda por conta dessa reformulação do espetáculo, houve mudanças no texto? 

Certamente por conta dessa reformulação do espetáculo houve mudanças no texto que foi sintetizado, mas o espírito do texto está muito presente e isso é o mais importante. As mudanças aconteceram no seguinte sentido: estamos diante de uma nova ferramenta virtual e os atores estão dentro do camarim, a gente procura recriar o mesmo clima do backstage, mas não é a mesma porque não é presencial. O diálogo que se estabelece entre os atores que estão ali adquire uma nova formulação. Nesse sentido é que nós procuramos recriar a atmosfera do backstage e trazer um pouco desse clima de intimidade entre os atores antes de entrar em cena e acabam misturando realidade e ficção.

Para você, como foi a experiência de encenar sem a presença do público, algo que imagino que seja sem precedentes na sua trajetória no teatro?

A experiência de encenar sem a presença do público tem sido um exercício extremamente rico, mas para nós que estamos habituados a ter a presença do público isso nos trouxe um desafio. Sabemos que o teatro é essencialmente é uma arte presencial e essa abordagem virtual que estamos explorando não é teatro do que a gente entende, vivencia. O contato com o público é insubstituível, mas, para uma situação em que precisamos continuar trabalhando e nos comunicar, acho que estamos estabelecendo uma ponte com o público que é diferente do teatro que costumamos fazer, mas nos traz um desafio de estar enfrentando um novo momento. Nesses anos todos, estou com 81 para 82 anos, são mais de 70 anos de carreira, é sem precedentes na minha trajetória. O artista é sempre colocado em situação de desafio. Vejo como um novo campo a ser explorado, mas certamente na esperança que, num segundo momento, estejamos de novo nos palcos representando para o nosso público.


Walderez de Barros: 'Estamos criando uma coisa nova, mas que não é teatro'

Com a reformulação do espetáculo, agora só com 'A Semente da Romã' sendo encenado virtualmente, como Ariela dialoga com sua personagem Anfissa em 'As Três Irmãs', já que o espectador não terá a visão do palco e da coxia, como o espetáculo foi idealizado originalmente?

Mesmo com a necessária reformulação do projeto inicial, que tinha as duas peças sendo encenadas, A Semente da Romã continua sendo uma peça ambientada nos bastidores da outra, os atores fazem referência a entradas de cena, por exemplo, ao tempo de espera entre essas entradas. Ariela não dialoga especificamente com sua personagem Anfissa, mas com sua situação atual, com o fim da temporada da peça que está sendo encenada e o inevitável desemprego dela. 

Fale sobre Ariela, essa personagem que representa o trabalho braçal no teatro, como você descreveu, fazendo um paralelo com sua personagem em 'As Três Irmãs', que é uma criada. 

Ariela faz referência ao teatro como uma arte coletiva, nesse sentido ela sempre trabalhou mais em função do grupo, sem pensar no sucesso pessoal. Já fez grandes personagens, mas agora na velhice tem que aceitar papéis menores, figuração com falas, como ela mesma diz. Não é o fato de estar representando uma criada que a incomoda, mas a constatação de que ela não será mais convidada para trabalhar, apesar de estar em ótimas condições físicas. E ela expõe com muita clareza o preconceito em relação à velhice no fazer teatral. 

Ainda por conta dessa reformulação do espetáculo, houve mudanças no texto? Que outras mudanças aconteceram?

Uma versão digital difere bastante de uma versão presencial. Sim, houve alterações no texto em função do novo formato, conservando-se o que é essencial à peça, que é a discussão de vários aspectos dos problemas do teatro.

Para você, como foi a experiência de encenar sem a presença do público, algo que imagino que seja sem precedentes na sua trajetória no teatro?

É fundamental que se esclareça: Isso não é teatro! Teatro se distingue de outras narrativas de ficção pela presença do ser humano no palco e de outro ser humano na plateia. Teatro é arte coletiva e presencial. Na televisão, também não temos público presente, portanto, representar para a câmera não causa tanta estranheza. Mas, mesmo na televisão, estamos contracenando com outros atores e outras atrizes que estão ali, no mesmo espaço que nós. Nesse mundo louco digital, gravei a peça toda em minha casa, diante do meu computador, contracenando com colegas que estavam na casa deles. Esse é o diferencial. Então, sabemos que estamos criando uma outra coisa, uma coisa nova, talvez outra linguagem, parecida com teatro, mas que não é teatro. E que, por enquanto, por falta de uma definição melhor, chamamos de “coisa”. 

 

 

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