GABRIELA BILO / ESTADAO
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A piada vanguardista de Andy Kaufman ganha os palcos com Gero Camilo e Victor Mendes

Dupla recria números do anti-humorista e experimenta trama paralela que desafia a cena

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2018 | 06h00

Ele chega ao palco e posiciona uma vitrola ao seu lado. Ao ligar o som, começa a música de abertura do desenho animado Super Mouse. O homem estranho canta um verso e para. A plateia reage com risos tímidos. Ele continua estático encarando o público, canta mais um trecho e para. A música segue e, quase cansado, ele pausa para tomar um copo d’água. No final desse número de Andy Kaufman, a plateia aplaude o artista que subverteu o humor norte-americano. “Ele queria trilhar o caminho mais difícil para arrancar o riso”, conta o ator Victor Mendes, que vive o cantor, ator e dançarino no espetáculo Andy, que estreia neste sábado, 23, no Sesc Santana. 

Kaufman antecedeu os humoristas Adam Sandler, Mike Myers, Eddie Murphy, Jimmy Fallon e Sacha Baron Cohen, talvez seu único “herdeiro”. Todos, exceto o último, foram descobertos e ganharam fama com o programa Saturday Night Live. Nos anos 1970, o que o canal NBC não imaginava é que estava exibindo um artista que desmontaria as regras do riso em suas apresentações – ao ir na contramão dos contemporâneos, conquistar público e crítica, e desafiar a imprensa com a sobrevida de Tony Clifton, seu personagem mascarado, que continuou se apresentando nos shows mesmo após sua morte prematura. Apesar dessa trajetória e dos 34 anos da morte de Kaufman, o NBC mostrou qual o lugar do artista para a posteridade. “De todos os artistas lembrados nos quadros espalhados pelos corredores do estúdio, o rosto de Andy Kaufman é o único que não aparece”, conta o ator e diretor Gero Camilo, que dirige e também atua na montagem. 

Durante a pesquisa para a criação da peça, a dupla perseguiu os rastros de onde Kaufman se apresentava. “Ele veio dos clubes de improviso no qual se pratica muito a escuta”, conta Camilo. “Enquanto muitos artistas queriam ser a voz da TV, ele criava a própria voz dentro da TV.” Antes de entrar no NBC, Kaufman fazia Latka Gravas, um estrangeiro tímido e sem talento para contar piadas, no seriado Táxi, ao lado de Danny DeVito, exibido pela ABC. Mas o sucesso viria mesmo com a imitação do astro Elvis Presley. “No museu do cantor, há uma fita gravada com essa a cena”, conta Victor. 

Parte desse legado também se deve ao espírito vanguardista de Kaufman, como rejeitar a ideia de ser considerado um humorista, o que fortalecia o conceito de performance em seus shows, ao ultrapassar a mera interpretação de um personagem e o funcionamento de um esquete cômico. Ele combinava cenas com alguns amigos que surgiam anônimos nos shows. “Eram escadas para Kaufman fazer as piadas. Tudo sem que a plateia soubesse”, afirma Camilo. 

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Próximo da morte, Kaufman parecia sobrevoar o próprio mundo criado. Um dia, uma mulher implorou para que ele fizesse Latka Gravas. Sua resposta: leu o livro O Grande Gatsby inteiro no show.

O nome original do filme sobre a vida de Andy Kaufman, interpretado por Jim Carey (leia abaixo), não passou batido por Gero Camilo e Victor Mendes. Man On The Moon representa o espírito do artista que tremeu as bases do show bis norte-americano, “mas tinha a cabeça na lua”, como conta Camilo, que estreia Andy ao lado de Mendes no Sesc Santana.

Sob o risco de apenas repetir números famosos do artista, muitos disponíveis na internet, a dupla não fugiu das referências, mas criou uma trama paralela à história de Kaufman, mesclando a carreira do comediante com a histórica trajetória da cadela russa Laika, tida como o primeiro ser vivo a orbitar a Terra, em 1957. “É o período da corrida espacial, com grandes inovações e o desejo de alcançar o espaço, um novo lugar”, lembra Camilo, que interpreta Laika. 

Durante a peça, Camilo também faz o papel de contrarregra dos shows e até de técnico do próprio Sesc. “Queremos ampliar a dimensão do trabalho dele, lembrando como a performance ultrapassa a representação de personagens e a narração de uma história.” Algumas cenas retratam o anti-humor do artista que, desde o início, rejeitava a imaginária quarta parede do teatro, aquela que se fecha à participação ativa da plateia. Além do estrangeiro Latka Gravas, Mendes também faz o orgulhoso e barulhento Tony Clifton, um oposto do primeiro, que é calmo e pacífico. 

Mesmo após a morte de Kaufman – vítima de um câncer raro de pulmão, aos 35 anos, ou aids, segundo alguns relatos não confirmados –, o personagem Clifton continuou se apresentando mascarado, mantendo sua identidade desconhecida, o que levou a questionar até a veracidade do óbito de Andy. “Pode ter sido o amigo e produtor Bob Zmuda, ou mesmo fãs”, diz Camilo. 

De todo modo, o polêmico Kaufman não foi rejeitado por toda indústria cultural norte-americana. O cineasta Orson Welles, famoso pela transmissão de Guerra dos Mundos no rádio, foi admirador declarado do trabalho do artista. “Estava claro que eles pensavam em outros mundos”, diz Camilo.

ANDY. Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579. Tel.: 2971-8700. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. Estreia sáb. (23/6). R$ 30 / R$ 15. Até 29/7.

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