Helena Wolfenson/DIVULGAÇÃO
Helena Wolfenson/DIVULGAÇÃO

‘A Macieira’ cria uma instalação que conduz a plateia a um litoral azul

Montagem do coletivo 28 Patas Furiosas garimpa na obra de Herta Müller um mito sobre a força da natureza e a fragilidade do homem

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2016 | 03h00

É a busca por lacunas que interessa o coletivo 28 Patas Furiosas, que estreou em 2013 com o espetáculo Lenz, Um Outro, inspirado na novela inacabada do alemão Georg Büchner. Em um certo momento da peça, o cenário revelava uma porta de madeira fincada no chão que apoiava seus batentes sobre um tanque com água, nivelados ao solo. Tal como uma casa subterrânea ou um portal inundado, as personagens consultavam a substância líquida da genialidade de Jakob Lenz, condutor do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), movimento romântico alemão dos anos 1960-1980. 

Agora, em sua segunda montagem, o coletivo embrenha-se em A Macieira, parte de um passeio pelo universo da romena Herta Müller, que estreia nesta sexta-feira, 15, no Centro Cultural São Paulo. Dirigida pelo cenógrafo e iluminador Wagner Antônio, a montagem se debruça sobre um dos capítulos do livro O Homem É um Grande Faisão no Mundo e capta a fábula de uma macieira que come os próprios frutos, até que um dia a árvore é incendiada pelas autoridades locais. 

O coletivo resolveu dar o próprio pontapé na história e conduzir a narrativa para outro lugar: o fogo consumiu a árvore por 30 anos e, quando se apagou, o vilarejo ao redor começou a se mover em direção ao oceano. 

Para dar conta do mito recém-concebido, o diretor explica que também seria preciso criar um rito próprio, ou seja, um modo particular de arquitetar o espetáculo. “Colocamos a natureza em movimento em contraste com um homem que está acamado e perto de morrer”, diz Antônio. 

Na ânsia por enumerar todos esses acontecimentos, o diretor opta por suspender a fala, em alguns momentos, e dar protagonismo ao aparato cênico, composto por diversas vigas de madeira que são movimentadas dentro de um corredor de luzes e sons. “A escritora concebeu o livro em meio a um estado de exceção. Ela não podia se comunicar, mas criou uma poética única para amenizar essa dificuldade”, conta. “Diante dessa desestabilização, procuramos encontrar espaços de deslocamento e invenção.” 

A interação com a madeira e outros materiais surge como continuidade da pesquisa do primeiro espetáculo. No caso das vigas, Antônio conta que algumas foram retiradas do próprio telhado da sede da companhia. “Foram os primeiros exercícios com os atores para criar uma relação com a macieira.” O conjunto se completa com um sistema de som para simular os tremores da terra e dois carrinhos móveis que transportam os refletores de luz. Em face da iminência da morte, o vilarejo escorrerá como um fluido para se imergir no oceano. “O mar é a invenção e todo deslocamento serve para nos reinventar.”

A MACIEIRA. Centro Cultural São Paulo.Rua Vergueiro, 1.000. Anexo Adoniram Barbosa. Tel.: 3397-4002. 6ª e  

sáb., 21h; dom., 20h. R$ 20 / R$ 10. Estreia 15/4. Até 22/5.


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