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'A Paixão Segundo Nelson' faz boa combinação entre o trágico e o cômico

Musical encerra temporada neste fim de semana

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

13 de abril de 2016 | 19h34

Sob os pseudônimos de Myrna e Susana Flag, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues se consagrou como autor folhetinesco, na década de 1940. Atrás desses nomes, Nelson conquistou seus leitores de jornal ao tratar de temas banais, mas essenciais à vida humana: o amor e o relacionamento.

É com o mesmo ponto de vista que se estrutura A Paixão Segundo Nelson, musical que encerra temporada neste fim de semana no Teatro Bradesco. Trata-se de um projeto iniciado em 2012 por Zeca Baleiro (encarregado da adaptação dos textos e das canções originais) e de Débora Dubois, diretora e responsável pela concepção final.

Nelson era um autor hiperbólico, cuja escrita transitava sempre pela paixão, seja entre os seres, seja pelo futebol. Não era um homem de comezinhos, tampouco adepto da descrição - a existência, para ele, tinha de ser vivida em sua plena intensidade. Se no papel tanto exagero não transborda, graças à escrita genial desenvolvida por Nelson, qualquer adaptação de sua obra corre o risco de, no mínimo, parecer exagerada.

Felizmente, não é o que ocorre com A Paixão Segundo Nelson. Débora e Baleiro acertam ao não se concentrar apenas em Myrna e Susana Flag, personagens que se correspondiam com os leitores por meio de uma seção de cartas publicada em jornal, tendo suas angústias comentadas e respondidas por elas. Se se limitassem a essas personagens, seus criadores estariam à beira do precipício.

Isso porque Rodrigues não abrandava em seus textos - trágicos em sua aparente banalidade, oprimidos sob o peso de uma religião arcaica e castradora, os personagens rodriguianos tentam matar dentro deles desejos, pulsões e instintos que acabam por explodir nas mais tortuosas maneiras. E, quando isso ocorre, divididos pela contradição entre desejo e culpa, só no sofrimento ou na morte encontram a redenção de seus pecados.

Mas, em meio a tanta tragédia, Nelson conseguia captar também o patético, o que tornava seus textos repletos de bom humor. É da boa combinação dessa mistura que se nutre A Paixão Segundo Nelson: uma cena dramática é seguida de outra engraçadíssima - muitas vezes, uma mesma cena traz as duas características.

E isso só ocorre graças à qualidade do elenco e à direção. É ótima a solução de mostrar a presença do dramaturgo em cena (vivido por Rui Rezende) e também de seus alter egos (Roberto Cordovani interpreta com fineza Myrna). O tragicômico está bem representado por Giselle Lima, Lula Lira e Marcos Lira. Helena Ranaldi utiliza bem todos seus recursos cênicos, navegando com firmeza entre o trágico e o cômico. Finalmente, Vanessa Gerbelli e Jarbas Homem de Mello - figuras ímpares do musical brasileiro, donos de voz potente, acolhedora, elástica, eles também possibilitam que todo o universo rodriguiano seja apresentado com honestidade e talento. Como Nelson, eles sabem que a intensidade de qualquer amor é, por si mesmo, trágica.

A PAIXÃO SEGUNDO NELSON 

Teatro Bradesco. Rua Palestra Itália, 500. 5ª e sáb., 21h; 6ª, 21h30; dom., 20h. R$ 50/ R$ 100. Até domingo (17). 

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