Ronaldo Gutierrez/Divulgação
Ronaldo Gutierrez/Divulgação

‘A Máquina Tchekhov’ mostra um criador que, como médico e artista, escreveu sobre dor

Não é preciso conhecer o enredo de todas as peças para ser conquistado pela "máquina" teatral do romeno Mátei Visniec

Jefferson Del Rios, ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

05 Outubro 2015 | 05h00

Sempre impressiona saber das precárias condições de saúde, doenças graves, que não impediram o trabalho de grandes artistas. Foi no sofrimento que muitos exerceram seu talento. Esta força estranha de um Antônio Francisco Lisboa (o nosso Aleijadinho) impulsionou Anton Chekhov (1860-1904) que, como médico praticante, sabia-se condenado pela tuberculose e, no entanto, inventou um teatro que jamais deixa de comover por sua visão compassiva dos homens. O mesmo aconteceria, depois dele, com tantos outros, como Amedeo Modigliani e Franz Kafka. O dramaturgo romeno contemporâneo Matéi Visniec insurge-se, porém, contra a morte e ressuscita o escritor em A Máquina Tchekhov. Coloca-se frente a frente com suas criaturas de ficção. Permite-se ainda a insolência divertida perguntando se não seria ele apenas um bom escritor menor e até “chato” nos contos. Arroubo afetuoso deste intelectual de 59 anos que virou moda no Brasil. Depois de reinar anos por aqui, Heiner Müller foi enterrado e agora só se fala em Visniec (mas, e Ignacy Witkiewic, Slawomir Mrozek e Fernando Arrabal, seus antecessores? Os dois últimos fizeram sucesso e estiveram no Brasil).

Em todo caso, vamos adiante porque o texto é realmente engenhoso ao se referir ao russo como “uma máquina de triturar destinos”. Visniec com a ironia de filho temporão do Teatro de Absurdo faz um jogo de adivinhação sobre os motivos que levaram Chekhov a escrever peças melancólicas sobre aquela Rússia cruel onde a aristocracia e apaniguados dominavam milhões de pessoas analfabetas e famintas, a maioria camponesa. Uma relação de classes semifeudal que comportava servos da terra e repressão massiva aos dissidentes.

Antes de Stalin já havia os “gulags”, tenebrosos campos de concentração siberianos. Matéi introduz sem aprofundar a viagem que o escritor fez às prisões em uma das ilhas Sacalinas no Pacifico norte, inferno gelado onde Chekhov examinou centenas de presos. Essa vivência resultou em A Ilha de Sacalina, relato entre jornalismo e literatura, mas não uma denúncia política incisiva. Foi mesmo um artista de excepcional agudeza ao narrar decadências, derrotas existenciais de vidas confortáveis do ponto de vista material. Um de seus biógrafos notou que ele não toma partido e nem sugere soluções. Impaciente, Matéi (que sofreu com o comunismo da Romênia e teve de se exilar na França) coloca um personagem a interrogá-lo com irritação se haverá uma revolução no país. Afinal, o seu contemporâneo Máximo Gorki escreveu Pequenos Burgueses, obra-prima assumidamente ideológica até porque integrou a revolução bolchevique de 1917 enquanto Chekhov morreu uma década antes.

O espetáculo com a linda, poética, iluminação de Wagner Pinto, um trabalho digno de premiação, estabelece uma atmosfera claro- escura de fantasia dentro do realismo onde circula a humanidade chekhoviana, de Tio Vânia, A Gaivota, O Jardim das Cerejeiras (ou O Cerejal, mais corretamente – não existe “jardim de bananas ou laranjas”, etc.), As Três Irmãs, Ivanov. Não é preciso conhecer o enredo de todas as peças para ser conquistado pela “máquina” teatral de Visniec, dirigido com talento por duas excelentes e sábias atrizes, Clara Carvalho e Denise Weinberg (é sempre difícil executar um concerto a quatro mãos). O que flutua na luz difusa, esfumaçada, da cena é gente palpável e ao mesmo tempo marionetes das circunstâncias. Pessoas falidas nos negócios, amores, relações familiares, sempre sonhando escapar da província para Moscou. A representação ganharia com menos lentidão gestual, menos réquiem.

Ao relacionar os intérpretes por ordem alfabética, sem os papéis, o programa impõe um democratismo nada justo quando não se reconhece quem faz qual papel. No entanto, é preciso registrar que Ariana Silva, Dina Feldman, Emmilio Moreira, Fernando Poli, Fernando Rocha, Michel Waisman sabem o que fazem, e o fazem bem, ao lado dos experientes Brian Penido (Chekhov) e Mariana Muniz. Eles, a luz, a direção e a ironia de Matéi trazem de volta Anton Chekhov e concluímos que, sim, é genial este artista uma vez definido como o mais delicado, o mais sutil dos dramaturgos contemporâneos. 

A MÁQUINA TCHEKHOV

Instituto Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 97, Centro, tel. 3237-1187. Sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 20. Até 25/10. 

Mais conteúdo sobre:
Cultura Teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.