Priscila Prade
Priscila Prade

A crise de um artista às voltas com o futuro

Leonardo Miggiorin protagoniza ‘Não se Mate’, solo dirigido por Giovani Tozi e dialoga com obra de Drummond

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estado

02 de abril de 2021 | 05h00

Não tivesse a pandemia do coronavírus paralisado o setor cultural ao redor do mundo, o ator, diretor e produtor Giovani Tozi teria, em 2020, entrado em cena ao lado de Erica Montanheiro para estrelar o drama Gas Light, do inglês Patrick Hamilton (1904-1962) sob a direção de Jô Soares.

Contudo, a história sobre um homem que manipula sua esposa para que ela duvide da própria sanidade deu lugar a uma série de questionamentos sobre a vida e a forma banal que passamos a enxergar a morte enquanto os números de vítimas da covid-19 aumentavam.

“É assustador olhar ao redor e ver que ainda existem pessoas que negam a pandemia, que frequentam festas clandestinas e desautorizam a ciência. Perdeu-se, por parte da sociedade, a noção de que ‘a vida é tão rara’”, diz Tozi que, levado por esses questionamentos, iniciou o processo de escrita de seu primeiro texto para o teatro.

“Precisamos parar de morrer. Chega de falta de amparo público, de ignorância e desinformação. Eu procuro não esperar algo dos trabalhos que faço, mas sempre coloco toda a minha energia e atenção para que sejam feitos como um presente para o público. Esse presente, que ofereço de forma despretensiosa através do meu ofício, é feito da violência dos dias atuais em conjunção da beleza da arte e da poesia”.

Nasceu então Não se Mate, solo estrelado por Leonardo Miggiorin que estreia online nesta sexta, 2, e cumpre curta temporada até 11 de março, com transmissão pela plataforma Sympla.

Dirigida por Tozi, a obra põe em cena Carlos, um artista plástico atingido por sucessivas perdas que abalam seu equilíbrio emocional. Ao receber uma série de ligações do futuro (com a participação em off de Luiz Damasceno), a personagem passa a desenvolver seus conceitos sobre a vida e a morte em busca de conforto.

Os questionamentos existenciais levantados pela personagem encontram costura com a obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), utilizada para potencializar o discurso que Tozi acredita que encontrará acolhimento da plateia. “O personagem se relaciona diretamente com o público, e eu acredito que qualquer um que assista se veja no meio das cores, do humor e dos conflitos desse nosso ser humano em crise”, diz.

O espetáculo traz poemas como Poema das Sete Faces (1930), Uma Pedra (1930) e E Agora, José? (1942), além do tema-título, Não se Mate (1962). A escolha de Drummond, garante o autor, não foi ao acaso. Sua relação com o mineiro vem desde os tempos de colégio e, enquanto escrevia, a poesia do autor vinha à sua cabeça de forma natural.

“Quando comecei a escrever, percebi que a poesia dele ecoava absolutamente integrada à história. Confesso que relutei em assumir essa simbiose, depois pensei que ele próprio sempre fez questão de escrever crônicas, poemas e contos que dialogassem com as pessoas. Encarei o desafio como uma tentativa de fortalecer e difundir seu incrível legado.”

Miggiorin também tem uma história antiga com o poeta. Enquanto esteve à frente de sua (por ora desativada) banda Vista, o ator chegou a compor uma canção com base nos versos de Eterno (1945), além de sentir uma relação direta com o universo tratado pelo conterrâneo mineiro.

“Isso de ser mineiro sempre me causou identificação com a obra dele. Tem um ar interiorano, de roça, cidade pequena, um tempo diferente nas poesias dele”, diz o ator, que estava em cartaz em São Paulo com o drama A Bicicleta de Papel, de Luccas Papp, antes da segunda onda de fechamentos de teatros e decidiu aceitar o convite de Tozi para sua primeira empreitada online, que deve render ainda novas investidas na linguagem digital.

“É uma realidade possível que amplia nossas possibilidades. É um campo muito vasto, com grandes desafios, mas com muitas oportunidades. Não substitui a relação presencial que o teatro propõe, mas é um formato que atende a uma demanda importante.”

Concordando com o colega, Tozi avista uma fatia maior do mercado com a facilidade da transmissão online. “Como artista, me interessa a troca. Não faz sentido discursos que não consideram o público na equação. É aí que sinto a dualidade dessa experiência. O maior ganho é poder estrear simultaneamente em São Paulo e em Manaus, e saber que não há limites para o alcance do nosso discurso; a maior perda é justamente alcançar tanta gente, mas olhar para plateia durante a apresentação e ver filas de poltronas vazias.”

“Acredito que o mais importante é ver o teatro reagindo, ganhando novas musculaturas, que vem para fortalecer. É sempre a soma que deve interessar. Vai passar logo, e não sei se muita coisa vai mudar, mas tenho certeza que, pelo menos, nunca na história do mundo se documentou e se experimentou o teatro com tanta voracidade”, finaliza.

Gravado no Espaço Cultural Bricabraque, idealizado e mantido pela fotógrafa e produtora Priscila Prade, em São Paulo, Não se Mate fica em cartaz de sexta-feira a domingo, sempre às 20h, até o dia 11 de abril. Os ingressos são gratuitos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.