Bob Sousa
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'A Catástrofe do Sucesso' une textos curtos de Tennessee Williams

Título da peça é artigo do autor que descreve os efeitos da chegada da fama em sua vida

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 03h00

Uma mulher que escreve cartas para o autor do livro que está lendo. Um casal que busca em suas memórias a chance de resgatar a relação distante. Em cartaz no Instituto Cultural Capobianco, A Catástrofe do Sucesso une duas peças curtas de Tennessee Williams

Não é de se surpreender que um grande dramaturgo – autor de sucessos como Gata em Teto de Zinco Quente e Um Bonde Chamado Desejo, tão celebrados nos palcos brasileiros – saiba demonstrar suas habilidades em diferentes formatos. Em sua carreira, reuniu um conjunto com mais de 70 peças curtas, sobre os mesmos temas que investigou em suas obras mais famosas. A diferença está na estrutura, que resgata o pensamento da filosofia que deu os primeiros passos ao que conhecemos como teatro, conta o diretor Marco Antonio Pâmio. “São textos que trabalham as unidades básicas, quase aristotélicas, de narrar um acontecimento, a ação, um mesmo espaço de tempo e lugar.” 

A peça é uma continuidade do projeto idealizado pela atriz Camila dos Anjos de encenar peças curtas do autor. A estreia foi com Propriedades Condenadas (2014), também dirigida por Pâmio, a partir dos textos Esta Propriedade Está Condenada e Por Que Você Fuma Tanto, Lily?

Na nova peça, o critério de escolha foi a busca por textos que revelassem projeções autobiográficas do autor. O primeiro, Mister Paradise, narra a história de uma garota (Camila) que encontra um livro de poesia em um antiquário. O objetivo ignorado por todos servia de calço para uma mesa. Fascinada pela escrita, ela começa a escrever cartas para o autor, mas é ignorada. A curiosidade leva a moça até a residência de Anthony Paradise (Iuri Saraiva), um homem desacreditado de sua própria criação. Em pouco menos de meia hora, a leitora e o escritor têm um embate sobre a posição da arte e seu poder de fascínio na sociedade. 

No segundo texto, intitulado Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Escutar, o ambiente é um quarto mobiliado na badalada Oitava Avenida, em Manhattan. Nele, um casal vive uma relação distante, e o sofrimento provocado leva o homem a relembrar momentos agradáveis. Para a mulher, o caminho é fabular sobre o futuro, em busca de esperança. “Podemos intuir as frustrações de Tennessee como artista e sujeito. Ao criar esses personagens, ele consegue dialogar com temas que o afetam”, continua Pâmio. “Seu universo é recheado de meios tons, ele transparece os sentimentos mais profundos em cenas de silêncio e também nas ações irracionais, na explosão das personagens.”

Diante das inquietações sobre a vida e a arte, o título que batiza a montagem também é uma importante pista para compreender o pensamento do autor e a trajetória repentina que o tirou do anonimato. A Catástrofe do Sucesso é um artigo publicado por Tennessee no jornal The New York Times em 30 de novembro de 1947. É lá que o autor descreve o choque e o desconforto que experimentou com a fama e a notoriedade. No meio das duas histórias, a peça resgata alguns trechos do artigo. “São pensamentos que pessoas comuns não imaginam, ou acreditam ser exagero, mas a fama afeta demais a vida de diferentes artistas. O texto de Tennessee é um relato íntimo sobre essa angústia provocada pelo sucesso.”

O artigo invoca um período em que o autor ainda tentava emplacar peças suas em Nova York. No momento em que escreve, Tennessee celebra, com certa amargura, o terceiro ano desde a estreia de À Margem, peça que o tirou dos quartos baratos que alugava e o levou para suítes luxuosas de primeira classe em Manhattan. Ele ironiza a transformação de sua vida e compara à fábula de Cinderella. “Ela é nosso mito nacional favorito, a pedra fundamental da indústria cinematográfica, senão da própria Democracia”, escreveu.

Para o diretor, a reviravolta na vida do autor gerou uma crise de consciência sobre a força da indústria cultural diante do talento. “A fama joga contra o artista. Depois de um sucesso, todos vão esperar algo melhor, e cada vez melhor.” 

A vida de um autor atingido pelo sucesso

l Foi só experimentar o sucesso de sua peça À Margem que a fama provocou em Tennessee Williams um efeito diferente do fascínio buscado por tantos. Sair dos quartos baratos de hotel para viver em suítes luxuosas pareceu atrair a desilusão na vida do autor. Em A Catástrofe do Sucesso, artigo publicado pelo escritor (veja acima), Tennessee demonstrava estar sufocado pela nova vida, desde pessoas que elogiavam suas peças ao encontrá-lo até o embaraço que não conseguia evitar ao ser servido por garçons e ter seu quarto organizado pelas empregadas. Sua nova rotina de artista parecia entrar em conflito com o sujeito. “Você sabe, então, que o ‘alguém’ público é uma ficção criada por espelhos e que o único alguém digno de você ser é o seu ‘eu’ solitário.” A solução, para ele, foi se afastar. Tennessee viveu uma temporada no México enquanto se dedicava a escrever, com prazer renovado, A Partida de Pôquer, mais tarde, batizada O Bonde Chamado Desejo – próximo sucesso. No texto, para explicar a fama, ele recorreu à ‘deusa-cadela’, alegoria de William James. Tennessee diz que, ao abraçá-la, ganhava-se a segurança, mas para quê? “A vida é curta e não volta nunca mais. Ela está fluindo furtivamente agora, enquanto eu escrevo isto e enquanto você me lê e o pêndulo de relógio, ao oscilar, repete somente: ‘Nunca-mais, nunca-mais, nunca-mais’, a menos que você se lance, de coração, a essa oposição.”

A CATÁSTROFE DO SUCESSO. Instituto Cultural Capobianco. R. Álvaro de Carvalho, 97. Tel.: 3237-1187. 6ª e sáb., 20h; dom., 18h. R$ 30 / R$ 15. Até 28/4. 

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