DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

A caminho dos 40 anos de atividade, Grupo Tapa estreia 'A Cantora Careca', de Ionesco

Peça há 60 anos em cartaz em Paris fecha mostra com repertório que compõe o chamado Teatro do Absurdo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2018 | 06h00

Eduardo Tolentino é o tipo de artista que a academia não conseguiria domesticar. Sua paixão por entender os ecos dos clássicos contemporâneos no palco ultrapassa a energia necessária para manter um pesquisador comum trabalhando. Ao mesmo tempo, seu rigor na direção do Grupo Tapa, hospedado em São Paulo desde 1986, não deixa nada a dever à ambição de um bom projeto, com a vantagem de que o diretor torna material pulsões de vida e morte no palco. 

A nova inquietação do grupo ganha estreia nesta sexta, 16, com A Cantora Careca, primeira e mais que bem-sucedida peça de Eugène Ionesco, no Teatro Aliança Francesa. Desde janeiro, o grupo iniciou a Mostra Que Absurdo!, que incluiu apresentações de As Criadas, de Jean Genet, e Uma Peça Por Outra, de Jean Tardieu, remontando o termo criado em 1961 pelo crítico Martin Esslin. “Não se trata de um movimento, como o surrealismo, mas uma classificação posterior, que considerou um tipo de dramaturgia praticada por artistas desse período”, diz Tolentino. “O pano de fundo era o pós-Hiroshima e o Holocausto. O mundo passava por uma revisão do próprio sentido da vida, da existência e, por que não?, das artes e das palavras.”

Em comparação com O Rinoceronte (1959), A Cantora Careca, que estreou dois anos antes no La Huchette, – no ano passado, a montagem completou 60 anos em cartaz, em Paris – é uma grande molecagem, diz Tolentino. Nela, um casal inglês, com todas as manias de um casal inglês – que come a tradicional refeição inglesa, na sala inglesa, ao som das badaladas de um relógio inglês –, recebe a estranha visita de outro casal que descobre ser casado durante o jantar. “As palavras não servem mais para se comunicar. Isso tem a ver com os dois malucos que discutem no Twitter sobre apertar um botão para começar uma guerra ou mesmo se a celulite da cantora pop é um ato político ou não”, afirma o diretor sobre os conflitos entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, e o clipe de Vai Malandra, de Anitta.

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Para o diretor, a discussão sobre as relações na era virtual é antecipada na peça por um objeto curioso. Enquanto o jantar acontece, o telefone toca muitas vezes, sem que ninguém responda. Por fim, a campainha toca, e também não há nada do lado de fora. “A porta, como a vida social, exige presença”, diz Tolentino. “A ausência é potencializada com a internet, mesmo que a proposta fosse que estivéssemos sempre conectados. O pior é que não há estranhamento nenhum nisso.”

Se a distância do passado permite elaborações, a história também tende a fornecer surpresas que mudam tudo. Na estreia francesa de A Cantora Careca, o público ficou esperando a cantante aparecer e, em um mês, a produção foi encerrada, retornando anos depois, para nunca mais parar. Por outro lado, muitas experiências cênicas duraram pouco o bastante para renovar o que seriam os novos tempos, como foi na primeira montagem de Vestido de Noiva, em 1943, por Ziembinski. “Foram apenas seis apresentações, que serviram para modernizar o teatro brasileiro”, conta Tolentino, que encenou a peça de Nelson Rodrigues em 1994. “Só me senti pronto para ela depois que fizemos 'Viúva, Porém Honesta'. Ainda acho que não tenho condições de encenar alguns autores. Beckett é um deles.” 

Em contrapartida, nos quase 40 anos de trajetória profissional do Tapa, somam mais versões a favor entre obras de Martins Pena, Maquiavel, Ibsen, Molière, Vianinha, Jorge Andrade, Artur Azevedo e tantos outros que alfabetizaram a companhia no seu ofício. “A gente queria formar nossos atores e o público, concomitantemente, porque espectadores também caem de paraquedas. A ideia era visitar grandes autores em pequenas obras e prosseguir para as maiores.” O pot-pourri Uma Peça Por Outra, de Tardieu (1980), é um exemplo. “Foi um grande exercício de linguagem para nós”, conta a atriz Clara Carvalho. “Nela, entendemos o trabalho do ator a partir de obras clássicas.”

Nesse período, Tolentino conta que sua geração era devota da metalinguagem e o surpreende saber que a atual discussão é da representatividade. “O teatro em sua essência sempre foi um intérprete representar outra personagem, qualquer que fosse. Não se pode dizer que alguém não pode interpretar outra coisa”, afirma. “Se discutirmos mercado de trabalho e empregabilidade, eu concordo que todos os artistas devem receber pelo trabalho que fazem. Mas até os próprios artistas têm medo da palavra mercado.”

A CANTORA CARECA. Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, telefone 3572-2379. 6ª, 20h30, sáb., 19h. R$ 50 / R$ 25. Estreia 6ª (16). Até 15/4.

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