A África imaginária está refletida no espetáculo 'Salina'

Grupo Amok leva ao Espaço Sesc obra sobre o ódio e o perdão

Daniel Schenker - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2015 | 18h43

RIO - Salina (A Última Vértebra) confirma certas características da Amok Teatro, ao mesmo tempo em que sinaliza determinadas mudanças. Como nos espetáculos anteriores da companhia, Ana Teixeira e Stephane Brodt apresentam uma cena ritualizada, conduzida pela busca do sagrado, evidenciam elos com o Oriente e dão importância fundamental à música. Todos esses elementos remetem a uma destacada companhia internacional, o Théâtre du Soleil, dirigida por Ariane Mnouchkine, onde Ana e Stephane acumularam experiência.

Depois de Macbeth, uma das aclamadas encenações da Amok, a partir da peça de William Shakespeare, ambos retornam ao terreno da tragédia, agora por meio de uma peça contemporânea do francês Laurent Gaudé - centrada na saga da personagem-título, casada à força, violentada pelo marido e expulsa de sua cidade após ser acusada de deixá-lo morrer no campo de batalha. “O espetáculo fala sobre ódio e perdão. Mostra como perdoar é difícil, complexo”, resume Ana. 

Em contrapartida, Salina - que tem estreia marcada para a próxima quinta-feira, no Espaço Sesc, em Copacabana, no Rio de Janeiro - é a primeira montagem da Amok em que Stephane não está em cena, e sim dividindo a direção com Ana. Além disso, o projeto não se limita à criação do espetáculo, mas traz à tona a relevância da formação, no que diz respeito ao longo processo voltado para a construção minuciosa da presença do ator. Dessa vez, Ana e Stephane não recrutaram antigos atores da Amok. Selecionaram dez atores negros sem, porém, enveredarem pelo esquema de funcionamento habitual das audições.

“Lançamos convite nas redes sociais. Recebemos cerca de 200 inscrições. Selecionamos 60 atores. Desses, 20 prosseguiram num processo mais aprofundado. Dos 20, foram escolhidos 10 para a montagem. Empreendemos um trabalho de formação introduzindo a linguagem do grupo. Chamamos o mestre Jorge Antônio dos Santos, que trouxe um sentido de ancestralidade bastante forte”, afirma Ana, frisando a influência do congado e do candomblé na concepção de Salina.

Há ainda uma diferença em relação a outras encenações da Amok. Se os espetáculos que integraram a Trilogia da Guerra (O Dragão, Kabul e Histórias de Família) eram mais fincados no real, Salina revela uma África imaginária. “Os atores devem se apropriar desse continente. O cenário e os instrumentos musicais carregam influências de países distintos - Peru, Indonésia, China, Índia. É uma África de teatro, em que o mundo dos vivos se cruza com o dos mortos”, realça Stephane, que assina, junto com Ana, o cenário e os figurinos da montagem. Entretanto, até nos espetáculos da Trilogia da Guerra, o registro de atuação não tangenciava o naturalismo cotidiano. “O ator se afasta da representação para viver algo diante do público. Existe uma analogia entre o trabalho do ator e as técnicas de possessão. Isto não significa, contudo, a defesa do descontrole”, observa Ana, ressaltando que o eventual estado de transe do ator em cena precisa ser construído e controlado. 

A Amok se aproximou do transe em seu primeiro espetáculo, em 1998: Cartas de Rodez, monólogo de Stephane sobre a correspondência entre Antonin Artaud e seu psiquiatra, Ferdière, durante seu período de internação no manicômio de Rodez. Norteada pela referência de Étienne Decroux, a Amok vem caminhando na contramão de tendências mercadológicas da cena carioca. Laurent Gaudé, em texto publicado no programa de Salina, demonstra sintonia com esse perfil de resistência: “Salina é uma peça impossível. Não foi razoável escrevê-la. Hoje, assim como na época, para um jovem escritor que quer ver suas peças serem montadas é melhor optar por uma peça num formato mais comportado: uma duração que não exceda uma hora e com, no máximo, dois ou três personagens. Salina é desmedida. Basta pensar: um tríptico com dezenas de personagens. Qualquer um diria: ‘muitas pessoas, muito longa, muito cara...’ Mas será que devemos parar de escrever peças como esta? Eu sempre achei que não. Que o teatro morreria se não tivesse textos impossíveis para montar (...) Eu acredito nisso. Que o papel do autor não é de prever, em sua escrita, a viabilidade ou não das cenas (...) Ele está aqui para produzir o impossível. Cabe às pessoas de teatro, diretores e atores, realizarem esse impossível no palco. Eu escrevi Salina para este teatro utópico que eu amo, porque ele é capaz de conter o mundo inteiro num palco”. Depois de Salina, ainda sem previsão para chegar a São Paulo, Ana e Stephane têm novo projeto em vista, a partir da obra do escritor moçambicano Mia Couto.

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