Zélia Monteiro procura inspiração na história de vida em nova coreografia

Zélia Monteiro procura inspiração na história de vida em nova coreografia

'Sob o Meu, o Nosso Peso' faz mergulho em busca de suas raízes

Helena Katz - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2014 | 19h00

Seus bisavós fundaram a Vila Zélia e neste sábado, às 18h, Zélia Monteiro estreia lá o seu novo trabalho, Sob o Meu, o Nosso Peso. Com uma sólida pesquisa em improvisação voltada para a composição, realiza a sua primeira instalação coreográfica. Em seu espetáculo anterior, Danças Passageiras (2013), trabalhava as memórias impressas em seu corpo pelos seus dois mestres: Klauss Viana, com quem trabalhou por oito anos e foi assistente, e Maria Melô, com quem se formou em balé clássico e também foi assistente. Com a nova produção, mergulha na sua história de vida.

“Foi no ano passado que cheguei na Vila Zélia. Estava trabalhando com Marta Soares no Danças Passageiras e ela me pediu que trouxesse algo do meu universo pessoal. E meu nome vem da minha bisa, cuja filha morreu com 15 anos, de tuberculose, e a vila recebeu seu nome, Maria Zélia, para homenageá-la”

Daí surgiu o interesse em fazer algo lá mesmo - desejo que se materializa com a nova criação. “Quando comecei a residência lá, encarei muitas das questões de um Brasil com o qual não convivia. O espaço é tombado, está em ruínas e foi invadido. Foi necessário negociar com os que me disseram “isso aqui é nosso”, e que estão no vídeo que acompanha o meu solo”, conta.


Sem saber direito como começar uma aproximação, Zélia convidou o pessoal do Oficinas de Fotografia, de Guarulhos, do Bairro dos Pimentas, para trabalhar com eles. 

“Foi muito difícil conseguir chamar a atenção deles. Só quando pedi para fotografá-los é que algo se iniciou. Foram dois meses até que os moradores da Vila começaram a fotografar o seu lugar e a se apossar dele de outra maneira.”

O material produzido nessa experiência foi reunido no formato de uma exposição, que faz parte deste projeto. 

“Quando eles estavam lá, ficavam por perto fazendo outras coisas. Não tocavam em nada do que deixava, mas não se chegavam, demarcando bem os dois espaços, o meu e o deles. Os mais novos subiam no muro e ficavam olhando, dando risada. Acabei incorporando isso no espetáculo, que não danço no “lugar deles”.

Esta é a primeira vez que Zélia Monteiro faz algo fora de um palco. “É um tipo de vivência que me põe em uma situação na qual não domino nada, porque não tenho familiaridade com o lugar e nem com a técnica do Toshi, que convidei para fazer a minha preparação corporal”, explica.

Toshi Tanaka, artista performer japonês que imigrou para São Paulo em 1994, coordena o espaço Jardim dos Ventos desde 2001, e ensina seitai-ho e do-ho.

“Catalogamos o acervo de minha mãe, que tem quase 90 anos, e reúne informações do período entre o tempo do Brasil Império, no final do século 19, até os anos 1930, e doamos tudo para a Casa da Imagem”.

Instigada por suas descobertas, Zélia se entusiasma contando da importância da Vila Zélia: “Foi um projeto de ponta em todos os sentidos. Imagine que já naquela ocasião, a escola local seguia o método de Maria Montessori, totalmente inovador em educação. É difícil ver tudo destruído porque a utopia daquela vila operária era a de um Brasil que ia dar certo”.

A temporada de Sob o Meu, o Nosso Peso será apresentada na Escola de Meninas, no Belenzinho, até 15 de novembro. Haverá transporte gratuito na estação Belém do Metrô, meia hora antes de cada espetáculo. A equipe de produção estará vestindo camiseta vermelha com o logo do Núcleo de Improvisação, ao lado da catraca. Em caso de chuva, o espetáculo será transferido para o domingo.

ZÉLIA MONTEIRO

Escola de Meninas. Rua Mario Costa, 13, tel. 98484-5516. Sáb., 18 h e 20 h. Grátis - retirar ingressos 1h antes. Até 15/11.

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