Ronaldo Gutierrez/Divulgação
Ronaldo Gutierrez/Divulgação

Universo marginal de Jean Genet volta aos palcos de São Paulo

'As Criadas', 'Esplêndidos' e 'Genet: O Poeta Ladrão' oferecem rara oportunidade de vislumbrar como vida e obra se confundiam

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2015 | 03h00

Ladrão, homossexual, diversas vezes encarcerado, o escritor francês Jean Genet (1910-1986) conheceu como poucos a danação da alma e a transformou em literatura de primeira qualidade, a ponto de o pensador Jean-Paul Sartre avalizá-la como grande arte. Autor de obras que põem em jogo a luta de classes e a disputa de poder, Genet inspira três montagens que chegam aos palcos paulistanos neste início de ano. Duas são inéditas, As Criadas e Esplêndidos, que vão ocupar o Teatro Aliança Francesa em janeiro (dia 16) e março (ainda sem data), respectivamente, e trazem a assinatura do encenador Eduardo Tolentino. A terceira, Genet: O Poeta Ladrão, é uma reestreia e volta ao Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca, também em janeiro (dia 14), com direção de Sérgio Ferrara.

Montagens que oferecem uma rara oportunidade de se vislumbrar como vida e obra se inspiravam e se confundiam. E como também o texto de Genet possibilita novas leituras. “Genet é muitas vezes montado apenas com a valorização de seus clichês, como dominação entre classes, homossexualismo”, comenta Tolentino. “Ele era capaz de transformar em manifesto sentimentos que estavam latentes e, com isso, propõe um jogo de espelho que deflagra diversos tipos de relação, como no trabalho, que é o caso de As Criadas.”

Assim, ao ser convidado para ocupar novamente o palco do Aliança Francesa depois de um hiato de 13 anos (veja no quadro), Tolentino escolheu as duas peças de Genet que possibilitam brincar com artifícios infantis. “Busquei ressaltar os signos de jogos infantis: assim, as criadas se vestem com roupas da patroa e brincam como se tivessem uma casa de bonecas. E, em Esplêndidos, na qual o elenco é inteiramente formado por homens (a maioria formada no Tapa), há um jogo de bandido e mocinho, algo típico do universo masculino. Em ambos os casos, há aquele gosto do proibido, algo como aquelas brincadeiras que crianças fazem quando os pais estão longe.”

Encenada pela primeira vez em 1947, em Paris, As Criadas acompanha duas empregadas, Solange e Clara, que, a sós, representam e ensaiam o assassinato da patroa, a Madame. A brincadeira é levada ao limite da perversidade, a ponto de provocar a prisão do amado de Madame.

Tornar-se algum outro. Tornar-se um outro para se reconhecer, e flagelar-se e fracassar, é um processo existencial triste e lamentável em As Criadas, que foi inspirada na história real das irmãs Christine e Léa Papin, domésticas que brutalmente assassinaram seus patrões, em 1933, na França. Em seu texto, Genet trata da atuação como maneira de ser, e de ser como nada.

O escritor francês queria que As Criadas fosse encenada por homens para enfatizar a distância entre a auto percepção de uma pessoa e o olhar dos que a veem. Mas, segundo Tolentino, atualmente os direitos autorais são negociados com uma cláusula que impede a escalação de um elenco masculino. Ao contrário de ser um empecilho, tal obrigação caiu como uma luva para que o encenador marcasse de forma estupenda sua volta ao Aliança Francesa - ele pode convocar três atrizes com quem trabalhou no Tapa naquela fase dourada: Clara Carvalho, Denise Weinberg e Emilia Rey.

“Gostei da ideia de brincar de Bergman com essas meninas”, comenta Tolentino que, ao cuidar da tradução do texto, descobriu as diversas camadas da peça, o que prolongou o período de ensaios, marcado por sucessivas surpresas. “Percebemos que, além de muito texto para decorar, cada cena oferecia uma nova perspectiva à anterior”, conta Denise. “Assim, como no Bolero, de Ravel, em que a mesma melodia é modificada pelo acréscimo de novos instrumentos, transformávamos as cenas já criadas enquanto avançávamos no texto.”

Essa compreensão cotidiana da peça uniu ainda mais elenco e diretor. “Buscamos tirar os clichês das criadas, fugindo da afetação, da sordidez e aprofundando a poesia específica do texto”, conta Clara, que vive uma das criadas ao lado de Denise. “São muitos pedacinhos, cada um representando um símbolo”, acrescenta.

Vivendo na Espanha há alguns anos, Emilia Rey voltou ao Brasil especialmente para As Criadas. E o desafio revelou-se maior que o esperado. “O universo de Jean Genet é muito diferente do nosso. Mas trabalhamos aqui com a relação entre irmãs, e com a raiva que alguém sente por outro que ocupa uma posição superior”, comenta.

O cenário obedece a indicação do texto de Genet, criado nas cores vermelha, branca e preta. E a ribalta estará coberta de sapatos, um fetiche feminino. “Madame, porém, não exibirá o figurino tradicional, com roupas opulentas”, adianta Tolentino. “Ela vestirá um terninho branco, um tanto masculino, reforçando uma androginia.”

As Criadas

Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, 3017 5699, r. 5602. 5ª a sáb., 20h30; dom., 19h. R$ 20. Até 15/3. Estreia em 16/1. 

Em SP, Grupo Tapa desbravou novos caminhos

Fundado em 1974, no Rio, o Grupo Tapa se mudou para São Paulo, em 1986, quando passou a ocupar o Teatro Aliança Francesa. Foram 15 anos de parceria, período em que foram apresentados mais de 50 espetáculos.

Com um elenco praticamente fixo, o diretor Eduardo Tolentino pode desenvolver projetos que resultaram em montagens clássicas, como as 16 que figuraram no projeto Panorama do Teatro Brasileiro, a exemplo de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, e Rasto Atrás, de Jorge Andrade. Também acertou ao apresentar textos pouco conhecidos de grandes autores como Chekhov (Ivanov) e Shaw (Major Bárbara).

‘Genet: O Poeta Ladrão’ reúne beleza estética e situações de caos

Delírio e memória se mesclam na montagem de Genet: O Poeta Ladrão, texto do dramaturgo Zen Salles que conta com a direção de Sérgio Ferrara. Depois de estrear no final de 2013 e percorrer diversos espaços no ano passado, o espetáculo volta no dia 14, agora no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca.

“É um universo impactante e que não permite perfumaria. É preciso mergulhar sem pudor para entendê-lo. Genet habitava as sombras”, disse Ferrara ao Estado, na época da estreia da montagem. De fato, como sua obra carregava profundos vestígios do mundo marginal em que habitava, Genet (vivido em cena por Ricardo Gelli, em atuação perfeita) turvava consistentemente fatos pessoais em seus escritos, não por discrição, mas para torná-los mais saborosos e, desde sua morte, a obra vem conquistando uma reputação mais sólida.

A peça de Zen Salles traz cenas curtas, com acontecimentos condensados. Já a habilidade teatral de Ferrara é traduzida em momentos com os atores compondo telas vivas. “Era preciso que eu resgatasse a estética dele. Sua obra é muito imagética”, afirmou o encenador. 

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