Jairo Goldflus/Divulgação
Jairo Goldflus/Divulgação

Uma santa discoteca

A trilha do musical ‘Mudança de Hábito’ baseia-se no ritmo dos anos 1970, com muito soul e disco

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2014 | 21h00

A atriz Karin Hils era uma garotinha quando, nos anos 1990, ao assistir a uma cena do filme Mudança de Hábito, sentiu-se iluminada. “Eu estava apenas me divertindo, até o momento em que a personagem de Whoopi Goldberg incentiva outra moça a seguir seu desejo e aprender a tocar violão”, conta ela. “Eu também vivia em dúvida se devia me transformar em cantora e, naquela hora, acho que me decidi.”

A decisão foi acertada e agora ela se prepara para justamente viver aquele papel consagrado por Whoopi Goldberg no musical Mudança de Hábito, que estreia 5 de março, no Teatro Renault, em São Paulo: Deloris van Cartier, a cantora obrigada a se refugiar em um convento para fugir de bandidos que querem matá-la por ter testemunhado um assassinato praticado por eles. “Nem preciso dizer que o filme é um divisor de águas na minha vida. Revi dezenas de vezes e sei todos os diálogos de cor.”

Todos os detalhes serão necessários – como Deloris, ela quase não sai de cena e o enredo é praticamente conduzido pelas suas ações. E, acima de tudo, vêm as canções. Foram, aliás, as notas agudíssimas entoadas no teste de seleção que ajudaram Karin a ganhar o papel.

E não bastou aprender as canções do filme, pois, para o musical, foi composta uma trilha original, com letras de Glenn Slater e melodia do premiado Alan Menken (A Pequena Sereia, entre outros). Assim, se no cinema prevaleciam os clássicos da Motown, no teatro, a ação foi transposta para a Filadélfia dos anos 1970, época em que o estilo soul dominava – não à toa, a cidade era conhecida como “Fili Soul”.

Com as novas características, o musical manteve a estrutura original do longa, mas ganhou tons mais vibrantes. A Madre Superiora, por exemplo, que atende ao pedido de um policial para abrigar Deloris, teme que, com a vibração das noviças, motivadas pela novata, transformem o convento em uma discoteca.

Aqui, vale um parênteses: para quem não se lembra da história, Deloris enfeitiça as irmãs com seu canto ao mesmo tempo religioso e sensual, transformando um coro apático em um conjunto vibrante. As animadas canções das noviças atraem mais fiéis à paróquia, garantindo doações necessárias à sua sobrevivência.

“Deloris age sempre no impulso, o que a torna muito engraçada”, comenta Karin, que vê o humor como trunfo para sua atuação. De fato, nessa nova produção da Time For Fun, que vai substituir o megassucesso O Rei Leão, a potência vocal é tão importante quanto a presença em cena, daí alguns atores já estarem escalados como Beto Sargentelli, que teve um estupendo desempenho em Jesus Cristo Superstar, e Mariana Hidemi, um dos destaques do Leão. Adriana Quadros será a Madre Superiora, e Tiago Barbosa, consagrado como Simba, agora terá a chance de exibir a extensão de seu talento como um dos capangas.

Atriz negra. A atriz Whoopi Goldberg, coprodutora do musical Mudança de Hábito, garante que não chegou a pensar em viver no palco o papel de Deloris van Cartier. “Nunca pensei em reencarnar personagens e não seria diferente agora”, disse, em entrevista para divulgação do espetáculo. “Deloris fez parte da minha vida durante um tempo, mas agora ela pertence a outras atrizes. É como se eu fosse o tronco de uma árvore e essas atrizes, os galhos.”

Whoopi fez apenas uma exceção e não foi para viver o papel principal – em Londres, em 2010, ela interpretou, durante três semanas, a Madre Superiora. A responsabilidade de viver Deloris no teatro coube à talentosa Patina Miller, dona de uma voz poderosa e desenvoltura ímpar, que soube defender o papel que ajudou a consagrar Whoopi.

O musical estreou em 2006, em Pasadena, na Califórnia, conquistando a maior bilheteria já obtida no local. Mas foi em 2011, quando a atriz/cantora resolveu levar o espetáculo para Londres, que a produção teve um grande reconhecimento.

Whoopi conta que foi convidada a participar da produção do musical por Joop van den Ende. “Fiquei encantada com seu amor pelo teatro. Ele também concordou com uma condição que acho essencial: a personagem de Deloris será sempre interpretada por uma mulher negra, independentemente do local da montagem. Como ele concordou, não tive como recusar.”

Quando a produção começou a ser realizada, Whoopi teve dúvidas sobre outro aspecto: no musical, não seriam utilizados os grandes êxitos da Motown, que marcam o filme, mas canções especialmente compostas por Alan Menken. “Fiquei desconfiada no início, pois acreditei que seria impossível substituir aqueles clássicos, mas o trabalho de Menken me encantou – ele conseguiu captar a essência daquela época.” 

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