'Terra de Ninguém' exibe relação entre vítima e torturador

Personagens trocam diálogos delirantes em busca da última palavra

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 03h00

Em 2005, quando anunciou o dramaturgo inglês Harold Pinter como vencedor do prêmio Nobel de literatura, a Academia Sueca justificou em poucas linhas: “Pela sua obra, descobre-se o precipício que há por trás do balbuciar cotidiano. Seus textos entram nos espaços fechados da opressão”. As mesmas frases podem indicar o caminho de Terra de Ninguém, peça que ele escreveu em 1975 e que continua atual, como comprova a montagem que estreia nesta sexta-feira, no Sesc Vila Mariana.

Um dos mais destacados representantes da chamada geração Angry Young Men (Jovens Irados), na qual se enquadravam também John Osborne e Arnold Wesker, Pinter (1930- 2008) produziu uma obra marcada pela preocupação com a relação de poder entre o verdugo e a vítima, o torturador e o torturado, o senhor e o seu escravo.

“Ele inventou procedimentos então inexistentes de teatro com sua escrita”, constata Roberto Alvim, diretor de Terra de Ninguém e um dos maiores conhecedores da obra do dramaturgo inglês. “Pinter é um autor perturbador desde sua origem.”

Fluente no que se convencionou chamar em teatro de linguagem pinteresca, Alvim foi premiado em 2009 com sua versão de O Quarto, primeiro texto para o palco de Pinter (escrito em apenas quatro dias de 1957), no qual estão presentes alguns dos elementos básicos de sua estética: a ameaça, enquanto impulso da ação cênica, e o quarto, enquanto palco, onde o teatro intimista burguês sofre uma fulminante invasão.

Terra de Ninguém acompanha a trajetória de Hirst, um homem rico (Edwin Luisi), que, durante um passeio pela rua, encontra o pobre Spooner (Luis Melo) e o convida para a sua casa. Lá, enquanto bebem, iniciam um poderoso e torturante jogo de poder. Logo entram em cena Foster (Caco Ciocler) e Briggs (Pedro Henrique Moutinho), dois jovens dispostos a proteger Hirst, tornando a história mais perigosa e paranoica.

Aos poucos, a sanidade e o realismo em cena cedem espaço ao delírio, fazendo com que o público não enxergue mais as barreiras entre vida e morte, sonho e realidade. Os próprios personagens perdem suas identidades e as reconstroem obsessivamente, configurando o palco como uma zona de instabilidade: tensa, inquietante, perturbadora.

O projeto de encenar Terra de Ninguém inicialmente contava com a participação de José Wilker, que interpretaria Hirst. Ele até viajou a Nova York para assistir à montagem em cartaz na Broadway, estrelada por Ian McKellen e Patrick Stewart, mas nem participou dos ensaios, pois morreu em abril. “Wilker estava entusiasmado com nossa montagem, que acreditava mais delirante que a americana, engraçada demais, segundo sua opinião”, conta o diretor Roberto Alvim.

A definição do elenco certo é uma condição primordial para o sucesso artístico da encenação de Terra de Ninguém. “Esse texto é uma verdadeira obra-prima do teatro mundial”, observa Alvim. “Sempre tive vontade de montar, mas estava esperando chegar à formação de elenco ideal. Terra de Ninguém sempre teve montagens com grandes nomes das artes cênicas e a força dele pede isso. Temos um quarteto extremamente adequado para a peça: os papéis se encaixam muito bem em cada um dos atores e o quarteto tem uma ótima sintonia em cena.”

De fato, o relacionamento entre os quatro homens jamais é bem explicado, ora resvalando em uma absurda violência, ora beirando um caso descaradamente homoerótico. “Trata-se de uma declarada luta pelo poder”, acredita o ator Caco Ciocler. “E, nesse jogo de sobrevivência, cada um necessita ter um raciocínio mais rápido que o outro para conseguir impor sua vontade”, completa Luis Melo.

E é neste embate de palavras que se estabelece a relação entre os quatro homens. À medida que o espetáculo avança, os pensamentos e as falas tornam-se desconexos e isso é mostrado de forma ambígua, pois em nenhum momento há a certeza absoluta de que os saltos de lógica são realmente verdadeiros ou apenas um hábil jogo que determinado personagem utiliza para afastar seu interlocutor.

São essas artimanhas linguísticas que tornam único o texto de Harold Pinter na dramaturgia mundial. “Sua obra é essencialmente sobre a linguagem”, observa Alvim, que se correspondeu com o escritor em seus últimos anos de vida - morreu em 2008. “Como era também ator, Pinter sabia que a encenação das suas peças exigia a criação de um código de atuação que até então não existia. Por isso que suas primeiras montagens foram tão surpreendentes.”

Era um universo novo, que exige um constante desbravar. Sobre seu trabalho, aliás, o editor e tradutor inglês Eric Kahane oferece uma das mais precisas definições: “O teatro de Harold Pinter revela um universo singular, cômico e aterrador, feito de subentendidos, mal-entendidos ou puros equívocos. Nele, observa-se, como se fosse ao microscópio, personagens que vegetam confusamente, de quem quase nada se sabe e que, de repente, explode num confronto em que as palavras são armas mortais. Estamos no reino do falso para se atingir uma verdade que é ainda mais falsa. As perguntas que se colocam não são aquelas que nos vêm à cabeça e a resposta, ou a recusa de responder limita-se a aumentar o abismo da incompreensão. O pudor torna-se violência, o sorriso ameaça, o desejo é impotente, a vitória se desfaz”.

É justamente esse universo de limites difusos que encanta Roberto Alvim. “Terra de Ninguém é uma peça que aborda a degradação humana e tem um intenso jogo de poder”, acredita. “Os personagens Spooner e Hirst se alternam numa relação paranoica em uma peça com uma carga homoerótica muito forte. O espetáculo começa de maneira bem realista e vai entrando num delírio completo, que faz com o que público saia do teatro sabendo menos daqueles personagens do que ao entrar.”

Por conta disso, os ensaios promoveram verdadeiras descobertas aos próprios atores. “Fizemos pesquisas sobre zonas complicadas na relação entre os homens”, lembra Edwin Luisi. “Há uma luta feroz para ser aceito. E, como existem muitas zonas nebulosas, decidi que não queria arrumar explicações para o caminho do meu personagem - preferi me deixar levar pelas sensações que cada cena, cada diálogo, provoca.”

Sensação semelhante sentiu Pedro Henrique Moutinho, que interpreta um dos rapazes que participam do embate psicológico entre Spooner e Hirst. “A indefinição do texto provoca diferentes sensações e uma conversa incomum entre os personagens. É daí que nasce a perturbação, algo que começou já durante nossos ensaios”, disse o ator, escalado por Alvim por unir duas qualidades essenciais: a sensibilidade artística e um tremendo preparo corporal. “Pedro é perfeito ao provocar vibrações por meio de uma violência física”, elogia.

Alvim buscou ainda não repetir fórmulas que, com o tempo, se tornaram clássicas nas montagens de peças de Harold Pinter - como a grande quantidade de pausas e silêncios nas falas. “Elas até são pedidas no texto original, mas nem sempre seu uso desperta o efeito esperado”, explica. “Especialmente nessa peça, em que todos procuram alguém para ser subjugado, o que transforma a história em algo próximo de um pesadelo.”

O cenário reforça o tom da montagem: o palco aparece forrado com um piso de mármore negro e uma parede de garrafas ao fundo. Ela será coberta por duas paredes do mesmo material que o chão e, ao se fecharem no segundo ato, conferem ao palco um ar de mausoléu. Como figurino, os atores usam roupas escuras, com forte influência dark e dândi, inspirado no filme Laranja Mecânica.

TERRA DE NINGUÉM

Teatro do Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 15/ R$ 50. Até 26/10.

Mais conteúdo sobre:
teatro Terra de Ninguém

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.