FUNDACIÓN TEATRO A MIL
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Teatro da Vertigem agrada ao público em adaptação no Chile

Com estreia em 2012, ‘Bom Reitro 958 Metros’ vira ‘Patronato 999 Metros’ na 22ª edição do Festival Santiago a Mil

Murilo Bomfim - Enviado especial / SANTIAGO, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2015 | 03h00

Do hotel para a van, da van para o bairro do Patronato. Do Patronato para a van, da van para o hotel. Esse movimento pendular marcou a árdua passagem de 15 dias do Teatro da Vertigem pelo Festival Santiago a Mil, que movimenta a capital chilena desde 3 de janeiro e mantém atrações até o final do mês. 

A intensidade do trabalho do Vertigem vem de um dos grandes desafios da história do grupo: adaptar o espetáculo Bom Retiro 958 Metros à cidade de Santiago a convite do festival, que percebeu semelhanças entre os bairros. De produção complexa, a peça estreou em 2012 e fez um retrato crítico da região paulistana do Bom Retiro, caracterizada por seu intenso comércio têxtil popular, presença de imigrantes e pela escravização de bolivianos. 

Para isso, como é de costume da companhia, a montagem usou a cidade como palco: a sequência de cenas começava em uma galeria de lojas e terminava no abandonado Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib), guiando o público por um percurso pelas ruas, utilizando aparelho de som móvel, iluminação pública e interferindo no trânsito. “Em geral, temos processos de um ano, um ano e meio, antes de estrear uma peça. Aqui tivemos apenas dez dias de ensaios”, diz o diretor Antônio Araújo, lembrando que, antes de sua chegada no dia 2, o festival teve uma pré-produção também de dez dias.

O resultado foi a peça Patronato 999 Metros, que estreou na quarta -feira e fez cinco apresentações até domingo com um percurso um pouco maior do que aquele que foi feito em São Paulo, como sugere o nome da montagem. Com lotação de 100 pessoas, o espetáculo teve seus ingressos esgotados antes mesmo do início do festival.

Araújo conta que conversou com dois chilenos que viram a versão brasileira e, quando souberam que seria montada no Patronato, não acreditaram no sucesso da empreitada. “Eles ficaram emocionados quando viram a peça. Disseram que era, ao mesmo tempo, diferente e igual à outra versão.” A definição dos espectadores parece bem apropriada para a adaptação, pelo menos no que se refere à estreia do espetáculo, acompanhada pelo Estado.

O processo de adaptação começou em outubro do ano passado, quando o Vertigem fez encontros com o público como parte da programação de despedida do projeto É Logo Ali, pelo qual o Sesc Ipiranga passou a ocupar um casarão vizinho, então à espera do fim da obra parcial de sua sede. Na ocasião, foram discutidas as relações entre Bom Retiro e Patronato e propostas algumas alterações.

Após fazer estudos, o grupo notou semelhanças e diferenças entre as regiões. Por causa das lojas, por exemplo, ambos os bairros têm vida intensa no horário comercial e, quando o comércio fecha (às 18 horas, no Brasil, e às 20 horas, no Chile), as ruas ficam desertas. A chegada massiva de coreanos é outro ponto comum. “Conversei com chilenos, haitianos e palestinos e sempre havia uma tensão, um comentário mais duro em relação aos coreanos”, conta também Araújo. “É uma tensão leve, mas está lá.” Ainda sobre migrações, há uma importante diferença entre os bairros. Enquanto no Bom Retiro há presença judaica, o Patronato é marcado pela chegada dos palestinos. 

O fato provocou uma mudança visível, proposta pelo dramaturgo Joca Terron: muito presente na versão brasileira, a noiva que ajudava a conduzir o espetáculo foi substituída por uma mãe palestina, ainda interpretada por Paula Klein. Havia, ainda, um terrorista que era judeu na versão original e, agora, deixa de sê-lo. “Ele pode remeter a um palestino, mas não necessariamente”, afirma Araújo. 

Em algumas cenas, o personagem faz intervenções na rua: em Patronato, alterou o logo do Banco de Chile para “Câncer de Chile”, arrancando aplausos tímidos da plateia, que mesclava chilenos e brasileiros. A ideia foi proposta por um grupo de oito atores locais que, a pedido de Araújo, integraram o elenco e levaram questões contemporâneas do Chile à peça. “O lema ‘No más lucro’ vem da luta dos estudantes em relação aos sistemas bancário e universitário”, afirma o diretor, ressaltando que fez questão de agregar os hermanos ao espetáculo. “À medida que dialogamos com o bairro, é importante ter pessoas de Santiago conosco.”

Se o enredo começava no Lombroso Fashion Mall no Bom Retiro, em Santiago o público partiu da Galeria de los Arcos, na Rua Recoleta. Apesar de ser menor que o centro comercial de São Paulo, a galeria tem dois andares, o que fez com que o espetáculo ganhasse um caráter mais vertical. No local, uma cena teve mais corpo: na pele da faxineira filósofa, a atriz Mawusi Tulani recebeu um novo formato para seu número musical. Em uma paródia de Um Mundo Ideal, canção da animação Aladim, da Disney, ela esnoba uma manequim defeituosa que quer trabalhar na galeria, dizendo que, para estar ali, é preciso ser importado da Coreia. Enquanto ela cantava, um coro de manequins perfeitas dançava no mezanino do local, com caracteres do alfabeto coreano projetados nas paredes.

Após o percurso, o público assistiu ao fim da montagem na danceteria Punta Brown, que funciona no prédio do antigo Teatro Picaresque. Ainda com estrutura de teatro, o edifício não tem o ar de abandono do Taib, mas cumpre o papel de ser um espaço cênico que ganhou outra função (assim como alguns, do Brasil, que viraram igrejas).

Com legendas em poucas cenas, áudios em espanhol, falas em portunhol e um roteiro traduzido entregue aos espectadores, o idioma não foi uma barreira. É prova disso o entendimento de Manuel Antonio Garretón, sociólogo chileno, sobre a peça. “Patronato mostra as características mais difíceis e grotescas dos moradores por intermédio de personagens desequilibrados”, disse, em entrevista ao Estado. “Uma boa maneira de revelar os sonhos e pesadelos da vida cotidiana em bairros similares de diversas partes da América Latina.”

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