Super-herói, psicopata, estadista (cantando!) tudo off-Broadway

O teatro musical mais inovador dos Estados Unidos ocorre, é claro, no circuito paralelo; de 'American Psycho' a 'Hedwig and the Angry Inch', veja os musicais que estão em cartaz nos EUA

Charles Isherwood, The New York Times

09 Setembro 2014 | 10h42

NOVA YORK - As palavras “Broadway” e “musical” se tornaram tão interligadas na imaginação popular que não custa lembrar as pessoas de que muito do teatro musical mais inovador em Nova York – melhor, virtualmente todo o teatro musical mais inovador de Nova York – ocorre off-Broadway. Enquanto a Broadway tem de jogar no seguro, apoiando-se em fórmulas testadas (e vulgares) para aliciar as multidões, os artistas podem arriscar off-Broadway, onde as apostas são mais baixas, as plateias mais aventurosas e o panorama mais receptivo a novas ideias.

A próxima temporada teatral oferece uma safra particularmente intrigante de novos musicais que podem ser vistos por menos de US$ 150 cada (embora, com os preços off-Broadway subindo tão rapidamente como os da Broadway, as verdadeiras opções de barganha não são abundantes).

A temática é agradavelmente eclética: há um espetáculo derivado de textos achados, um musical sobre uma figura notável da história americana, outro sobre um serial killer americano e dois espetáculos que entrelaçam os tópicos de Brooklyn e super-heróis. Embora a qualidade seja heterogênea, ao menos algum frescor é garantido.

O Public Theater terá um virtual festival de novos musicais em sua programação esta temporada. O mais fortemente antecipado (a estrear em janeiro) é Hamilton, do multitalentoso Lin-Manuel Miranda. Ele despontou para a fama e um prêmio Tony com In the Heights, seu retrato esfuziante da vida em Upper Manhattan que teve rap e hip-hop em meio às baladas teatrais tradicionais. O novo espetáculo de Miranda, inspirado na aclamada biografia de Alexander Hamilton por Ron Chernow, terá uma mistura parecida de texturas musicais para contar a história de um dos fundadores menos célebre do país. Mais intrigante ainda: o carismático Miranda fará Hamilton.

Estreará este mês no Public The Fortress of Solitude, baseado no romance de Jonathan Lethern sobre dois adolescentes obcecados por super-heróis crescendo no Brooklyn. A promissora equipe de criação inclui o escritor Itamar Moses cujo musical satírico de reality show Nobody Loves You foi uma boa e ácida diversão; o letrista Michael Friedman, compositor dos espetáculos dos Civilians, cuja obra é sempre aguda, idiossincrática e espirituosa; e o talentoso diretor Daniel Aukin (4000 Miles, Bad Jews).

Na primavera (americana), o Public apresentará um novo musical de Stew e Heidi Rodewald, cujo Passing Strange estreou nesse teatro antes de mudar para a Broadway. O novo espetáculo, The Total Bent, trata de um jovem prodígio musical negro crescendo em Montgomery, Alabama. Filho de um astro gospel e compositor das canções que fizeram a fama de seu pai, ele é descoberto por um produtor fonográfico britânico e vê sua vida tomar novo rumo.

E não convém esquecer Rock Bottom, que estreia no Joe`s Pub esta semana. Um minimusical estrelado pela força da natureza Bridget Everett e baseado em sua cama desfeita de toda vida, o espetáculo terá novas canções de Marc Shaiman e Scott Wittman (colaboradores de Hairspray), e também Adam Horovitz (Ad-Rock in the Beastie Box) e Matt Ray.

Evidentemente, o Public não é o único lugar onde se ver novos musicais nesta temporada. No Atlantic Theater, você encontrará Found, com libreto de Hunter Nell e Lee Overtree, diretor artístico de Story Pirates, que apresenta espetáculos baseados em escritos de crianças; e canções de Eli Bolin. O musical é inspirado na revista Found (e sua antologia de livros), que é criada por Davy Rothban a partir de coletâneas de textos encontrados aleatoriamente. A história do espetáculo segue as andanças de um sujeito cuja vida é transformada quando ele recebe uma nota em seu para-brisa que não era claramente destinada a ele. O Second Stage Theater recebe a première americana de American Psycho que foi produzido pela primeira vez no ano passado no Almeida Theater em Londres. Ela se baseia no livro espetacularmente violento de Bret Easton Ellis, cuja reputação definhou e desapareceu (como a do livro) desde que ele se projetou nos anos 80 com o cigarro pendendo do lábio e olhos injetados atrás de óculos Ray-ban. O espetáculo tem canções de Duncan Sheik, o compositor de pop-rock cuja trilha musical para Spring Awakening foi uma das mais fortes da última década. O livro é de Roberto Aguirre-Sacasa, um dramaturgo que também escreveu para televisão e fez bicos, fascinantes, como chefe de criação da Archie Comics (ele é um eterno obcecado por quadrinhos). O diretor da produção londrina, Rupert Goold (Enron) estará a bordo da nova produção, que estreia no inverno (americano).

É quase impossível, aliás, evitar o tema de quadrinhos e super-heróis quando se trata dos novos musicais desta temporada. Fechando minha lista de Novos Musicas off-Broadway Mais Promissores está Brooklynite no Vineyard Theater, que trata de um vendedor de loja de ferragens que sonha com uma vida de super-herói e seu fatídico encontro com Astrolass, “a super-heroína mais célebre do Brooklyn” que sonha em pendurar sua capa (no que ela se especializou: salvar restaurantes de produtos naturais e cervejarias artesanais?). Esta produção também ostenta um rol de talentos impressionante. Ela tem personagens criados pelo casal de romancistas formado por Michael Chabon e Ayelet Waldman.

Michael Mayer, vindo de sua ressurreição luxuosa de Hedwig and the Angry Inch, dirige e escreveu o libreto com Peter Lerman, que também fornece as canções. Steven Hoggett, talvez o coreógrafo mais requisitado da Broadway, cujos créditos incluem American Idiot e Once, fornecerá os movimentos para os antigos e futuros super-heróis. / Tradução de Celso Paciornik

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