HEITOR HUI/ESTADÃO
HEITOR HUI/ESTADÃO

Sexualidade e gênero pautam o teatro em 2015

Temas como prostituição, homofobia, aventuras eróticas, transgêneros e travestis vão ser abordados por diretores

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2014 | 03h00

Se o Congresso eleito neste ano é o mais conservador desde 1964, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, a classe teatral brasileira segue no sentido contrário. Em 2015, os planos dos encenadores sugerem sexualidade e quebra de tabus com assuntos que vão desde o retrato da vida de michês nos grandes centros urbanos a ataques homofóbicos, passando por histórias de transgêneros e travestis.

Com estreia no dia 19 de janeiro no Espaço Beta, do Sesc Consolação, Revide é o primeiro espetáculo da safra a entrar na temática. O texto de F. A. Uchôa mostra um caso fictício, mas muito próximo de situações reais: dois irmãos caminham de mãos dadas pela Avenida Paulista, quando são espancados por um grupo de adolescentes. A partir disso, um desconhecido resolve vingá-los por conta própria. A ideia é gerar uma discussão ampla sobre a violência urbana.

No mês seguinte, o Itaú Cultural monta a Ocupação Hilda Hilst (1930-2004), que não aborda exatamente a carga erótica contida em suas obras, mas a característica perpassa a mostra. “Vamos criar uma exposição totalmente em primeira pessoa”, diz o gerente do núcleo de Audiovisual e Literatura da instituição, Claudiney Ferreira. Além de diversos tipos de manuscritos de Hilda, dois monólogos já conhecidos do público paulistano serão encenados ao longo da ocupação, que vai até abril: A Obscena Senhora D (com direção de Donizeti Mazonas e atuação de Suzan Damasceno) e Osmo (no qual ambos invertem os papéis).

Após abordar o tema gay em Dizer e Não Pedir Segredo, de 2012, o Teatro Kunyn, coletivo criado por artistas como Ronaldo Serruya e Luiz Fernando Marques (diretor do Grupo XIX de Teatro), retoma o assunto na peça Orgia ou De Como os Corpos Podem Substituir as Ideias (o título ainda é provisório). Com estreia prevista para junho, o espetáculo pretende discutir a sexualidade na esfera pública com base na passagem do jornalista e escritor argentino Tulio Carella (1912-1979) por Recife – história registrada no livro Orgia – Os Diários de Tulio Carella, Recife 1960, lançado em 2011. “Soubemos de Tulio pelo Devassos no Paraíso (livro em que João Silvério Trevisan dedica a ele um capítulo)”, diz Marques. “Ele fica à deriva, observa a cidade, conhece as pessoas. O texto tem uma parte íntima e explode para um pensamento, uma reflexão sobre o País.” Para manter essa característica, o processo de criação da peça vai ocorrer em espaços públicos de São Paulo (como o Parque da Luz e o do Ibirapuera) – o que deve se manter quando o trabalho estiver pronto, durante a temporada. Em janeiro, o grupo ministra uma oficina para 15 atores, que podem vir a participar da peça – a seleção ainda está aberta.

Com cinco projetos em andamento, a atriz e diretora Georgette Fadel circula entre Rio e São Paulo para pesquisar a prostituição masculina. Caravelados, que deve estrear em março em alguma das duas cidades, tem base numa pesquisa da década de 1980, sobre a atividade de michê. “A peça revela os desejos recolhidos da sociedade, o cinismo social, o mercado do desejo da carne”, diz Georgette. Também para 2015, a diretora tem, na manga, O Leque de Lady Papapa, com texto de Oscar Wilde e interpretação de Newton Moreno. “A proposta é fazer o espetáculo com transgêneros, travestis, sapatões, drags. Um badauê de atores para desenvolver uma linguagem bem trans.”

Prestes a completar 15 anos, a Companhia Nova de Teatro concretiza uma ideia que surgiu no início de 2014. Após uma temporada em Nova York para encontros com o dramaturgo Richard Foreman, o grupo apresenta, entre junho e julho, o Projeto 2xForeman, com as peças Badboy Nietzsche e Prostitutas Fora de Moda – esta sobre prostitutas “old fashioned” (como diz o diretor Lenerson Polonini), que estão, de alguma maneira, fora do padrão.

Mesmo tendo festejado 25 anos em 2014, Os Satyros devem, agora, voltar à primeira fase do grupo, quando encenaram textos de Marquês de Sade – que deu nome ao “sadismo”. Segundo Rodolfo García Vázquez, um dos diretores do grupo, está prevista uma tetralogia com as peças Justine, Juliette, Os 120 Dias de Sodoma e A Filosofia na Alcova. Há, ainda, a ideia de fazer Multidão, uma peça performática que se baseia na obra do filósofo americano Michael Hardt para abordar o capitalismo contemporâneo – o que também é, de certa forma, obsceno.

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